Meio ambiente

Impacto dos aerossóis sobre o clima ainda é pouco conhecido

Impacto dos aerossóis sobre o clima ainda é pouco conhecido

A influência dos aerossóis na formação de nuvens e sua conseqüente relação com o clima da Terra é uma das principais questões a serem resolvidas pelos cientistas para compreender as mudanças climáticas. A afirmação é de Paulo Artaxo, professor titular do Departamento de Física Aplicada da Universidade de São Paulo (USP).

Efeitos dos aerossóis

"Conhecemos pouco sobre a ciência que está por trás dos aerossóis, mas essas partículas são determinantes para entender os impactos das mudanças climáticas no planeta", disse Artaxo durante o 11º Congresso Brasileiro de Geoquímica.

Segundo ele, a grande concentração de nuvens no Brasil torna ainda mais expressivos tais estudos. Os aerossóis podem ser formados naturalmente pelas florestas ou emitidos por ação antropogênica. Da emissão por queima de combustíveis fósseis às altas taxas de desmatamento na Amazônia, é perceptível a influência do homem no aumento da concentração dessas partículas na atmosfera.

Influência nas nuvens e na fotossíntese

No Brasil, 75% das emissões decorrem das queimadas na Amazônia, daí a concentração dessas partículas naquela região. De acordo com Artaxo, os aerossóis têm grande influência na formação de nuvens e na fotossíntese das plantas.

O físico explicou que as partículas geradas pelas queimadas fazem as vezes de núcleos de condensação na atmosfera, unindo gotículas suspensas no ar para que elas precipitem em forma de chuva. Quando o ar está saturado dessas partículas, no entanto, as gotículas não conseguem se unir. São formadas grandes nuvens que não precipitam.

Resfriamento da atmosfera

"As nuvens têm grande importância no resfriamento da atmosfera, pois refletem a radiação solar de volta ao espaço", contou. As queimadas no arco do desmatamento, no leste da Amazônia, formam uma grande pluma de aerossóis que reduz a radiação solar por onde passa. "O efeito de retirada de calor dessa nuvem é mais de 20 vezes maior do que o aumento do calor provocado pelos gases do efeito do estufa."

A intenção de Artaxo e dos pesquisadores do Experimento em Larga Escala Biosfera-Atmosfera da Amazônia (LBA) - grupo internacional de cientistas que estuda as relações entre o uso da terra e o clima amazônico - é comparar os efeitos das queimadas da região com outras áreas poluídas do mundo, como a Índia.

Decréscimo da fotossíntese

Outra conseqüência dessas nuvens é a influência na fotossíntese das plantas. Os aerossóis interferem na irradiação solar e, em um primeiro momento, ela fica mais difusa e aumenta a fotossíntese das plantas, que preferem esse tipo de luz. Mas quando a quantidade de aerossóis aumenta e freia totalmente a radiação do sol, a capacidade fotossintética das plantas decresce sensivelmente.

"Serão precisos muitos estudos ainda para compreender o funcionamento da atmosfera", destacou Artaxo. Baseado nos estudos do LBA, ele explica que, caso a ocupação territorial desordenada continue, as emissões provenientes das queimadas poderão ser o dobro daquelas oriundas de uma Amazônia explorada sustentavelmente.

Dúvidas sobre dados do IPCC

Questionado pelo geólogo Hubert Roeser, da Universidade Federal de Ouro Preto, sobre as incertezas dos dados do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC), Artaxo reconheceu que a questão é tema de muita controvérsia entre os cientistas. "Há muitas dúvidas, mas isso não quer dizer que nós não devemos fazer nada."

Se forem considerados apenas os combustíveis fósseis, o Brasil é o 17º maior emissor de gases do efeito estufa (GEE). Mas, com a inclusão da agropecuária e das mudanças no uso da terra, o país salta para a quarta posição, o que faz com que reduzir as emissões dessas duas fontes se torne importante desafio para o país na questão das mudanças climáticas.





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