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Cenários em escala global respondem questões "E se..."

Cenários em escala global querem responder questões
A novidade em relação ao estudo tradicional de cenários está na adoção de uma visão multiescalar e multidimensional. [Imagem: Antonio Scarpinetti/Unicamp]

Questões "E se?"

E se Donald Trump acirrar a guerra tarifária com a China, e a China, em represália, deixar de comprar a soja norte-americana para dar exclusividade ao Brasil? E se o Brasil, para dar conta da demanda chinesa pelo grão, expandir o plantio no Mato Grosso amazônico ou no Cerrado do Matopiba (nova fronteira agrícola envolvendo áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia)? E se a China resolver aumentar a criação de porcos, demandando ainda mais a soja brasileira?

E se os chineses, que não comem a soja transgênica, mas compraram a multinacional Syngenta, decidirem produzir internamente o grão modificado? E se algum fenômeno climático em outra parte do globo afetar o regime de chuvas e destruir plantações de soja no Brasil?

"E se?" é a questão que norteia o Telecoupling (teleacoplamento, em tradução livre), uma nova abordagem teórica e metodológica para prever cenários futuros sobre qualquer tema. A novidade em relação ao estudo tradicional de cenários está na adoção de uma visão multiescalar e multidimensional, envolvendo aspectos biofísicos, sociais, econômicos, políticos ou de outra natureza, seja em nível global, nacional, regional ou local.

O Telecoupling é um consórcio internacional envolvendo Brasil, China, Estados Unidos e Reino Unido, que foi selecionado para receber apoio do Belmont Forum, por sua vez um dos braços de fomento do Future Earth ("Terra do Futuro"), programa global de pesquisa focado nas grandes transformações em curso no planeta.

A parceria brasileira para o Telecoupling é formada pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Ambientais da Unicamp, Embrapa e Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP).

Cenários em escala global querem responder questões
Simulador da Terra Viva quer simular o planeta inteiro, mas com foco nos sistemas físicos. [Imagem: OneGeology]

Globalização e teleconexões

Quem explica a ideia que fundamenta o Telecoupling é Mateus Batistella, pesquisador da Embrapa: "Essa abordagem converge de dois conceitos que já são muito mais aceitos tanto na ciência como na mídia: a globalização, definida por processos que acontecem em determinado local e impactam ou são impactados por processos em outro local, e geralmente ligados a fatores econômicos e geopolíticos, no âmbito das ciências humanas; e as teleconexões, relativas a processos biofísicos como o El Niño, por exemplo, em que uma variação na temperatura do Pacífico altera o regime de chuvas no Nordeste brasileiro, não resultando necessariamente da atividade humana."

A metodologia envolve tanto sistemas humanos como sistemas naturais, promovendo uma interconexão real e a possibilidade de formulação de cenários. "Operacionalmente, o Telecoupling se baseia em sistemas que chamamos de 'exportadores', que enviam para outro sistema matéria, energia, capital, dinheiro, pessoas, etc.; 'importadores', que os recebem; e sistemas 'afetados', que não participam obrigatoriamente do fluxo entre exportadores e importadores, mas são impactados de alguma forma," completou Batistella.

Mateus Batistella explica que a operacionalização de um projeto tão complexo passa, inicialmente, por uma longa fase de coleta e mineração de dados, em todas as escalas (global, nacional, regional, local), sobre agricultura, produção, logística, meio físico, demanda por alimento, etc., constituindo-se assim as bases de dados.

O segundo foco está na pré-análise e análise desses dados. "Já o terceiro módulo não é fácil de implementar: o diálogo constante com os envolvidos (stakeholders), ou seja, grupos de atores e empresas do mercado produtivo. Temos sido bem-sucedidos mais no Brasil e na China, e agora começando nos Estados Unidos. Goste-se ou não do agronegócio, é o setor que continua segurando a balança comercial brasileira, tendo como principal commodity a soja, seguida pela carne."

Na opinião do pesquisador, esse modelo híbrido é a maior inovação do projeto, com os agentes envolvidos substituindo a modelagem baseada em agentes individuais - nas decisões do produtor, por exemplo. "Partimos da premissa de que esses grupos agem e reagem de forma semelhante ao mercado, ao preço e à legislação ambiental. Queremos mostrar [...] como essa inovação pode ser usada na prática para gerar cenários a partir do que chamamos de 'questões E se...', mostrar como a produção de soja vai reagir aos 'e se'," finalizou Batistella.

A próxima rodada do projeto será na Inglaterra, em agosto deste ano, e a última no Brasil, em 2019, a partir de quando serão esperados os primeiros resultados dessa nova técnica de futurologia científica.





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