Nanotecnologia

Elétrons viram líquido no grafeno

Elétrons viram líquido no grafeno
Os elétrons se movimentam no grafeno bicamada como se assumissem uma fase líquida. No detalhe, uma das amostras de grafeno bicamada suspensa no vácuo. [Imagem: Mayorov et al./Science]

Grafeno bicamada

Andre Geim e Konstantin Novoselov, ganhadores do prêmio Nobel por seus trabalhos com o grafeno acabam de literalmente adicionar mais uma camada aos seus achados.

Eles sobrepuseram duas camadas de grafeno de alta pureza e colocaram esse "grafeno bicamada" em um ambiente de vácuo, deixando a amostra suspensa, sem qualquer contato que pudesse alterá-la química ou fisicamente.

Isto eliminou quase totalmente os mecanismos de espalhamento que os elétrons sofrem quando percorrem o grafeno e alterou a forma como eles interagem entre si.

Elétrons em fase líquida

As medições revelaram um comportamento absolutamente anômalo dos elétrons ao percorrerem o grafeno bicamada: os elétrons se comportam como se fossem um líquido.

Na maioria dos materiais condutores, a corrente elétrica é transportada por elétrons que se movem livremente, como se fossem um gás - imagine uma multidão de pessoas andando em uma calçada; apesar dos encontrões, cada uma consegue manter sua própria rota, independentemente dos outros.

Mas, em baixas temperaturas, os elétrons se movimentam no grafeno bicamada como se assumissem uma fase líquida - imagine a mesma multidão marchando em grupos.

O fenômeno, visto pela primeira vez, é muito frágil, com o "fluido de elétrons" podendo ser facilmente quebrado por qualquer defeito na estrutura atômica do material - como se a multidão tentasse marchar no meio de uma floresta.

Anisotropia

As observações indicam que o fluido de elétrons forma alguns padrões, similares aos dos cristais líquidos nemáticos, uma espécie de cristal líquido cujas longas moléculas alinham-se numa direção determinada - elas são anisotrópicas.

No grafeno bicamada, a forte interação dos elétrons faz com que eles gerem um estado condutor anisotrópico - dependente da direção de propagação -, ou seja, eles se tornam elétrons nemáticos.

Segundo os pesquisadores, essa propriedade eletrônica única emerge porque as quasipartículas - os elétrons e seus correlatos positivos, as lacunas - se comportam no grafeno de forma muito diferente do que acontece nos metais. Eles apresentam uma simetria quiral - uma simetria entre os elétrons e as lacunas, parecida com a que existe entre as partículas e as antipartículas.

Os pesquisadores afirmam que o mais surpreendente é que tudo isso acontece sem a necessidade de aplicação de um campo magnético externo, como seria de se esperar, que poderia guiar os elétrons.

Bibliografia:

Interaction-Driven Spectrum Reconstruction in Bilayer Graphene
A. S. Mayorov, D. C. Elias, M. Mucha-Kruczynski, R. V. Gorbachev, T. Tudorovskiy, A. Zhukov, S. V. Morozov, M. I. Katsnelson, V. I. Falko, A. K. Geim, K. S. Novoselov
Science
12 AUGUST 2011
Vol.: 333 pp 860-863
DOI: 10.1126/science.1208683




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