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Escândalo da Volkswagen: inovações que eram enganações

A revelação de que a Volkswagen instalou um software em pelo menos 11 milhões de automóveis para enganar agências reguladoras e usuários sobre a emissão de gases poluentes de seus veículos a diesel colocou a empresa alemã na pior crise de sua história.

A descoberta aconteceu por uma casualidade, quando o grupo International Council for Clean Transportation (ICCT, na sigla em inglês) tentava pôr em prática seu objetivo, que era mostrar que os controles de emissão de gases poluentes na Europa seriam menos exigentes que os dos Estados Unidos.

A ideia era provar que os mesmos modelos de automóvel de uma mesma marca emitiam menos gases poluentes nos Estados Unidos do que na Europa - tudo porque o controle das agências reguladoras em solo norte-americano era mais rígido do que no continente europeu.

Mas as hipóteses levantadas pelo grupo deram lugar a revelações surpreendentes.

Flagrante

No ano passado, uma equipe da ICCT se dispôs a estudar as emissões de poluentes de três modelos Volkswagen: o Jetta, o Passat e a BMW X5.

Por meio de um sistema portátil de medição de emissões de gases poluentes (PEMS), que pode ser colocado no porta-malas dos carros, eles fizeram o teste em parceria com a Universidade de Virgínia Ocidental, nos Estados Unidos.

E foi esse sistema que revelou a fraude da Volkswagen. Ele analisa diretamente toda a fumaça que sai do escapamento em tempo real enquanto o carro anda pela estrada.

A equipe testou vários veículos com o medidor de gases, em viagens de até 2.100 km, de San Diego a Seattle.

Enquanto a BMW X5 passou no teste, o Jetta, fabricado em 2012, registrou emissões de óxido de nitrogênio 35 vezes maiores que o limite por lei, e o Passat, que era de 2013, registrou emissões 20 vezes acima do permitido.

"Esperávamos exatamente o contrário. Achávamos que os carros iriam passar no teste com as melhores taxas de emissões porque nos Estados Unidos há um controle rigoroso disso", disse Drew Kodjak, diretor-executivo do ICCT.

Os resultados do estudo alertaram as autoridades ambientais da Califórnia, que iniciaram sua própria investigação, que descobriram que o programa incorporado nos automóveis detectava quando o veículo estava sendo submetido a um teste e reconfigurava automaticamente o motor para reduzir drasticamente a emissão de poluentes, obviamente com perda de desempenho.

Quando a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) foi envolvida no caso, a Volkswagen acabou tendo que reconhecer que havia instalado o software em até 11 milhões de veículos a diesel.

A agência calcula que os carros da Volkswagen equipados com o programa enganador emitam até entre 10 e 40 vezes mais óxido de nitrogênio poluente do que o permitido pelas normas norte-americanas, o que consiste em "violação muito grave" da lei.

Ato de estupidez

Instalou-se assim aquela que provavelmente é a pior crise da história da Volkswagen, justamente quando a marca havia conquistado o posto de maior fabricante de automóveis a nível mundial.

O escândalo levou à demissão do executivo-chefe da empresa, Martin Winterkorn, e deverá dar prejuízos financeiros e econômicos à empresa, que poderá receber multas de até US$ 18 bilhões das autoridades norte-americanas e, provavelmente, sofrer um enorme prejuízo nas vendas futuras.

As ações da empresa caíram mais de 30% em dois dias, levando um jornal alemão a chamar o escândalo de "o ato de estupidez mais caro da história da indústria automobilística".

Estúpido, segundo a publicação, porque manipular os dados de contaminação para melhorar as vendas só pode ser visto como uma bofetada na cara dos clientes que pagaram a mais pelo que pensavam que seria um carro menos poluente.

A empresa disse que reservará cerca de US$ 7,2 bilhões em suas contas do último trimestre do ano para cobrir parte dos custos do escândalo, assim como "outros esforços para conquistar novamente a confiança de nossos consumidores".





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