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Livro reúne conhecimentos rumo ao etanol da celulose

Etanol da celulose
Publicar em inglês é essencial para que as pesquisas brasileiras tenham reconhecimento internacional. [Imagem: Divulgação]

Rotas para o etanol da celulose

Cientistas de todo o mundo estão em busca de uma tecnologia para a produção em escala industrial do etanol derivado da celulose da cana-de-açúcar. Atualmente, só se pode fabricar etanol a partir da sacarose, que corresponde a um terço da biomassa da planta.

O etanol da celulose permitiria aproveitar os outros dois terços, aumentando a produtividade sem alterar a área plantada. Atingir esse objetivo, no entanto, não é tarefa trivial.

O conhecimento adquirido até agora na busca do etanol celulósico foi consolidado no livro Routes to Cellulosic Ethanol (Rotas para o etanol celulósico), que acaba de ser lançado pela editora norte-americana Springer.

Reunindo textos de alguns dos principais especialistas do mundo em etanol celulósico, o livro foi editado pelo brasileiro Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências, e Gustavo Goldman, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, ambos da Universidade de São Paulo (USP).

Genético e bioquímica

O livro é um produto do 1º Simpósio sobre Etanol Celulósico, realizado em 2008 em São Paulo, com o objetivo de definir estratégias para obtenção do etanol celulósico por meios genéticos e bioquímicos.

A obra também agregou o conhecimento gerado posteriormente, com o lançamento do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) do Bioetanol, coordenado por Buckeridge.

"O foco principal do livro é a ciência básica originária do BIOEN e do INCT, que buscam construir a plataforma de conhecimento necessária para que sejam desenvolvidas as tecnologias de etanol celulósico. No livro, procuramos consolidar o que foi conquistado até agora", disse o cientista à Agência FAPESP.

Etanol da celulose
O Brasil é considerado referência mundial em estudos sobre o etanol. [Imagem: Mario Roberto Duran Ortiz]

Bioenergia e etanol da celulose

Segundo Buckeridge - que também é diretor científico do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), em Campinas (SP) -, a obra reúne textos de cientistas japoneses, norte-americanos, mas, sobretudo, de brasileiros.

"O Brasil é o maior produtor mundial de etanol de cana-de-açúcar e pioneiro no desenvolvimento de tecnologias para o uso de etanol para geração de energia. O país tem décadas de estudos acumulados sobre o tema", disse.

A obra é dividida em três partes: "Bioenergia", "Parede celular das plantas, enzimas e metabolismos" e "Genética da parede celular das plantas".

A primeira parte contextualiza o tema da bioenergia e as outras duas tratam de aspectos ligados a uma questão crítica para o desenvolvimento do etanol da celulose: dominar o conhecimento sobre a degradação da parede celular da planta.

"Se pudermos entender a síntese das paredes celulares, os geneticistas e biólogos moleculares poderão desenvolver plantas com polissacarídeos atualmente inexistentes na cana-de-açúcar, mas que serão introduzidos a fim de facilitar a hidrólise do etanol celulósico", afirmou.

Bioenergia no Brasil e no mundo

Na primeira parte, a obra apresenta uma visão geral sobre as rotas para o etanol da celulose.

O físico José Goldemberg discute a questão da energia no mundo, a fim de mostrar a posição brasileira no contexto internacional da bioenergia.

Em seguida, Buckeridge, Wanderley dos Santos e Edgardo Gómez - ambos pesquisadores do CTBE - discutem a produção de etanol da celulose pela via bioquímica.

Luiz Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá, Joaquim Seabra, do CTBE, e Isaías Macedo, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), finalizam a parte introdutória discutindo a produção de etanol celulósico pela via da gaseificação.

Etanol da celulose
Cientistas brasileiros estão estudando o uso de plasma frio para produzir etanol da celulose. [Imagem: CTBE]

Degradação celular

A segunda parte reúne os capítulos que tratam da degradação da parede celular por diferentes métodos. Takahisa Hayashi, da Universidade Agrícola de Tóquio (Japão), e Rumi Kaida, da Universidade de Kioto (Japão), escreveram sobre seus experimentos com madeira na Ásia. "Hayashi é um dos grandes pesquisadores da área no mundo. Nesses experimentos, eles utilizaram transgênicos para alterar a parede celular", disse Buckeridge.

O contraponto brasileiro à experiência asiática é feito por um grupo da Escola de Engenharia de Lorena, da USP, liderado por Adriane Milagres. "Eles tratam especificamente do ataque enzimático em materiais lignocelulósicos, revelando a experiência que acumularam ao longo dos anos", contou.

Um grupo da Universidade de Brasília (UnB), liderado por Edivaldo Filho, faz uma revisão sobre a atividade enzimática na degradação da parede celular. Em seguida, o artigo de Igor Polikarpov e Viviane Serpa - ambos do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da USP, trata da estrutura das proteínas. "Polikarpov é um dos melhores especialistas brasileiros em cristalização e enzimas, entre elas as hidrolases", disse Buckeridge.

Maria de Lourdes Polizeli lidera o grupo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP, que contribuiu com um artigo sobre hidrolases de microrganismos usadas para a degradação da parede celular. "Ela tem uma das maiores coleções do mundo de enzimas e fungos bem caracterizados", disse Buckeridge.

Richard Ward, também da FFCLRP-USP, é o autor de um artigo sobre engenharia de celulase para sacarificação de biomassa. "É um trabalho que eu considero espetacular: ele constrói proteínas que não existem na natureza e conta a história dessa engenharia, que já aplicou em plantas e microrganismos", disse o membro da coordenação do BIOEN-FAPESP.

A segunda parte é encerrada com o artigo de Goldman sobre o melhoramento genético do uso da xilose - um açúcar de cinco carbonos - pelas leveduras. "É um tema muito importante, envolvendo um problema crítico para o processo do etanol celulósico. No artigo, Goldman conta seus experimentos, retrata o que já existe e indica o que ainda pode ser feito", disse.

Etanol da celulose
Usando leveduras, cientistas venceram mais um obstáculo rumos aos biocombustíveis de celulose. [Imagem: Ha et al./Pnas]

Plantas inteligentes

A terceira parte tem o objetivo de traçar um paralelo entre o que está sendo feito no Brasil e nos Estados Unidos em busca do etanol de celulose.

"Em um dos capítulos, um grupo de autores norte-americanos mostra como eles estão explorando a maravilhosa diversidade do milho com uma abordagem genética muito avançada. O objetivo é chegar a uma planta ideal para a bioenergia," contou Buckeridge.

Eric Lam, da Universidade de Nova Jérsei (Estados Unidos), liderou o grupo que discutiu o desenvolvimento de "plantas inteligentes" para a produção de bioetanol. "Trata-se de uma área na qual eu e Hayashi também atuamos: buscar plantas capazes de degradar sua própria parede celular", disse.

O grupo liderado por Marcelo Loureiro, da Universidade Federal de Viçosa, foi responsável por um artigo relacionado à seleção de plantas para uma conversão mais eficiente em bioetanol. "Eles coordenam um trabalho muito importante de busca de variedades que tenham modificações na parede celular para, a partir daí, produzir etanol celulósico", contou Buckeridge.

O livro é encerrado com o artigo de Michel Lawton e Hemalatha Saidasan - ambos da Universidade Rutgers (Estados Unidos) - sobre genômica e parede celular. "Trata-se de um modelo de um musgo que tem um genoma muito pequeno e que pode servir para estudar o etanol celulósico", disse.





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