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Internet das Coisas precisa de regulamentação ética, diz pesquisador

Privacidade e segurança

Além de promover o desenvolvimento de soluções tecnológicas, a regulamentação da Internet das Coisas precisa garantir a privacidade e a segurança dos usuários da rede.

A opinião é do professor Eduardo Magrani, do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas.

Ele explica que internet das coisas é um tema "guarda-chuva" que trata de objetos inteligentes interconectados, que vão desde carros automatizados até relógios inteligentes ou eletrodomésticos controlados via celular. O que é importante é que tudo isso gera muitos dados sobre os hábitos dos usuários.

"Inclusive dados sensíveis, eles podem saber o que a gente come, quanto a gente gasta de calorias durante o dia e qual é o nosso percurso para o trabalho ou para qualquer lugar. Todos esses dados são informações pessoais que, se comercializadas ou transferidas a terceiros sem o nosso consentimento, podem vir a gerar algum dano nas nossas vidas. Então, a internet das coisas acaba impactando a todos nós por remeter a questões de privacidade," defende Magrani.

O pesquisador questiona a falta de transparência no uso das informações, segundo ele, um dos principais pontos a serem resolvidos pelo Plano Nacional de Internet das Coisas, cuja consulta pública encerrou-se esta semana: "Você sabe para onde vão esses dados? Sabe para quem o Google transfere? Você sabe se ele transfere para o seu seguro de saúde cobrar mais caro? A gente não sabe, então, tem que haver mais transparência nessas coisas".

Além de questões de privacidade, o pesquisador destaca também problemas de segurança que objetos conectados podem gerar. "A gente já tem exemplo de raqueamento de carros automatizados, de câmeras de vigilância, o que fez cair o Netflix e o PayPal em dezembro do ano passado. Todos esses exemplos remetem a falhas de segurança em internet das coisas", observa.

Padrão tecnológico

Outra questão a ser tratada na regulamentação é o padrão tecnológico: "Para o seu celular se comunicar com a sua geladeira, deve haver um padrão compatível de conexão entre eles. Então, esse é um problema na internet das coisas, como a gente criar padrões que permitam essa intercomunicação entre os objetos. Essa é uma questão altamente técnica que está presente na consulta".

Há ainda a preocupação com mudanças no mercado de trabalho que a internet das coisas envolve.

"A gente precisa, nas escolas, universidades e cursos técnicos, preparar, capacitar esses alunos para um novo mercado do século 21, da chamada quarta revolução industrial. Hoje, já há a expectativa de que várias profissões vão desaparecer do mercado em função da automação. Escritórios de advocacia hoje estão demitindo advogados recém-formados e substituindo por softwares, por robôs, que fazem um trabalho parecido. Então, como a gente capacita essas pessoas para esse novo mercado que é altamente impactado pela tecnologia?", pergunta o professor.

Ética da consulta Pública

A consulta pública sobre o Plano Nacional de Internet das Coisas recebeu cerca de 22 mil acessos, que geraram 2 mil contribuições.

Mas o processo levantou dúvidas.

"O Estado tem o dever de capacitar as pessoas para o debate. Foram dois meses, mas começou em meados de dezembro, quase natal, e iam fechar no início de janeiro, em meio a datas festivas e ainda voltando de férias. Com que intuito o Estado quis colocar essa consulta pública na calada da noite? Afastar as pessoas do debate? A ideia é incluir as pessoas. É um equívoco colocar uma consulta pública entre natal e reveillon", disse Magrani.

O MCTIC informou que o próximo passo será "consolidar as informações coletadas na Consulta Pública e juntá-las às demais informações produzidas pelo Estudo de IoT, realizado pelo consórcio contratado pelo BNDES para gerar um diagnóstico da área e propor ações para o desenvolvimento da utilização e da geração de valor que a Internet das Coisas pode gerar para o país".





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