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Pesquisa mostra que "apagão de engenheiros" é iminente

Após exatos dois anos de lançamento do Programa Inova Engenharia, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e por diversos parceiros, a carência de mão-de-obra qualificada no setor tecnológico continua a ser um dos principais problemas que emperram o desenvolvimento econômico do país.

Falta de engenheiros

A falta de pessoal, principalmente de engenheiros, é apontada na pesquisa "Mercado de Trabalho para o Engenheiro e Tecnólogo no Brasil", divulgada pelo Sistema Indústria em parceria com o Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea).

O estudo foi feito com dados de 2007, e dá continuidade às ações do Inova Engenharia. Lançado em 2006, o programa foi criado para promover uma ação de mobilização nacional em prol da modernização na educação da engenharia brasileira. A iniciativa conta com o apoio diversas instituições do meio acadêmico e dos setores públicos e privado brasileiro, entre elas a ABIPTI.

Empresas de todo o Brasil

Para realizar o novo trabalho, foi entrevistado um universo de 1.098 empresas, de todos os portes e setores, oriundas de todas as regiões do país. "Sabemos que a pesquisa é o melhor método para se radiografar qualquer situação e sugerir soluções de melhoria.

O programa Inova Engenharia reflete esse objetivo quando revela o perfil do profissional que temos hoje e o perfil que o mercado de trabalho e as novas tecnologias exigem", destaca o presidente em exercício do Confea, Ricardo Veiga, em entrevista ao Gestão C&T.

Retorno de engenheiros do exterior

Em sua avaliação, a curto prazo, uma solução para resolver a questão da falta de pessoal qualificado seria tentar trazer de voltar ao país os engenheiros que atuam no exterior. "Mas isso é difícil. Esse pessoal se preparou para atuar fora e para retornar teriam que ter salários compatíveis", afirma.

Para ele, a solução para a questão iminente do "apagão de engenheiros", expressão que é constantemente utilizada pelo secretário executivo da ABIPTI, Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, passa pela educação. Veiga acredita que, a médio prazo, é necessário estimular a opção por cursos técnicos e por profissões que têm a engenharia como base, o que não vem ocorrendo nos últimos anos. "A longo prazo, além de uma formação mais moderna, é preciso investir em pesquisa."

Entre outros dados divulgados pela pesquisa, Veiga destaca que o mercado de trabalho registra poucas empresas que empregam grande quantidade de engenheiros. As que têm em seus quadros até cinco engenheiros representam mais de 60% do mercado. "As grandes empregadoras, com mais de 100 engenheiros, são apenas 2,8% do total."

Engenheiros e pesquisadores

De acordo com o estudo, na grande maioria das empresas aparecem com destaque três tipos de engenheiros, os civis e afins, os eletricistas e eletrônicos e os mecânicos. No total, podem não ser as categorias mais contratadas, mas são as de presença mais constante em todos os portes de empresa.

Em quarto lugar vêm os pesquisadores de engenharia e tecnologia, bem distribuídos por todos os portes de empresas. "Em quinto lugar, mas com uma distribuição menos homogênea do que os pesquisadores, estão os engenheiros agrossilvipecuários, indicando o peso do setor agropecuário na economia brasileira", aponta a pesquisa.

O sexto lugar é ocupado pelos engenheiros de produção, qualidade e segurança, com concentração acima da média entre as empresas que contratam de um a cinco engenheiros, o que, segundo o estudo, demonstra a preocupação crescente da micro e pequena empresa com qualidade e processos.

Programas de estágio para engenheiros

O trabalho também indica que o caminho mais comum para a entrada dos engenheiros nas empresas é pela participação em programas de estágio (junto com os estudos) ou após um período como trainee.

A necessidade de estágios é apontada como crucial por boa parte dos entrevistados na pesquisa como forma de superar a barreira da falta de prática no ensino. "A empresa é vista como participante do processo de formação real do engenheiro para as necessidades do mercado", diz a pesquisa.

Correções no ensino da engenharia

O estudo aponta que, quando se fala nas correções ou ajustes que a educação de engenharia deveria sofrer, a questão da prática aparece sempre com destaque.

Ainda segundo a pesquisa, a necessidade de estágios é tão grande que são poucos os engenheiros que se formam no tempo mínimo de cinco anos, face à necessidade de dividir o tempo entre estudos e estágios se quiserem ter chances reais de bons empregos quando formados.

No entanto, o estudo indica que, se a entrada nas empresas depende de um período de estágio e treinamento, a permanência dependerá, cada vez mais, de atualização e adaptação a novas técnicas e tecnologias.

Outro dado que merece destaque é que, mesmo com programas de estágios e trainees, 41% das empresas ainda declaram realizar programas de treinamento específicos para os engenheiros recém contratados. "Por outro lado são relativamente poucas as que têm programas de atração de engenheiros recém formados ou prestes a se formarem", diz a pesquisa.

Estágio atual da engenharia brasileira

Uma das seções do trabalho fez uma avaliação sobre o atual estágio da engenharia brasileira. Foram feitas várias perguntas aos entrevistados, que deram notas entre zero e sete a diferentes aspectos da engenharia e aos cursos de engenharia no Brasil.

De acordo com o estudo, na grande maioria das escolas de engenharia e superiores, a média sete permite ao aluno passar de ano sem exame final. "Desta forma, a nota sete é um separador do aceitável e do que está abaixo do aceitável", aponta a pesquisa.

Foram avaliados os seguintes itens: adaptar-se às mudanças de mercado; engenheiros de modo geral; base teórica (matemática, ciências, engenharia); adaptar-se às demandas específicas das empresas; cursos de engenharia; formação de engenheiros.

A análise feita indica que a engenharia brasileira está quase que exatamente na média do adequado, sem nenhuma nota que se destaque para os aspectos selecionados. A avaliação também aponta que o grau de atualização das escolas de engenharia do Brasil fica abaixo da média. "As respostas às perguntas sobre o que poderia ser feito para melhorar o ensino de engenharia no Brasil indicam que, no Brasil, a universidade é pouco participante no processo de geração de inovação e tem dificuldades para acompanhar a indústria."

O que a escola ensina e o que o mercado demanda

A pesquisa revela uma grande distância entre o que as escolas ensinam e aquilo que o mercado demanda. A principal queixa, a falta de prática profissional, é parcialmente resolvida pelo esquema de estágios e programas de trainees, mas mesmo assim as empresas alegam que precisam fazer uma contribuição substantiva sob a forma de treinamento na empresa, cursos fora e tempo de adaptação do engenheiro aos processos e produtos específicos da empresa.

Ensino mais prático, foco e trabalho em equipe

Entre as sugestões apresentadas pelas empresas entrevistadas constam: um ensino mais prático, em que um embasamento teórico firme não impeça que a aplicação prática da teoria seja aprofundada e se aproxime mais das condições utilizando instrumentos similares aos que existem no mercado; a oferta de cursos de especialização de foco restrito, porém em profundidade para áreas de interesse específico das empresas; evitar a preocupação só com os aspectos técnicos, colocando mais ênfase no trabalho em equipe, na capacidade de liderança e de gerenciamento de equipes e projetos complexos.

De acordo com o estudo, as propostas para melhorias apresentam soluções para eliminar os pontos críticos atuais. Ao fazer isso, colocam as próprias empresas como parte da solução, recomendando uma aproximação delas com os estudantes e com as escolas. "Isso não significa que elas estejam falando em bancar os investimentos necessários; ainda cobram das escolas e do governo mais investimento em laboratórios e equipamentos que atualizem as escolas", indica a pesquisa.

Tecnólogos

Do total das empresas entrevistadas, 39% disseram já ter contratado tecnólogos. Na média, são 7,5 tecnólogos por empresa, em comparação com os 12,7 engenheiros por empresa.

"Com um tempo de formação mais curto, esse setor do ensino pode adaptar-se mais rapidamente à demanda do que o ensino superior tradicional, mais moroso e controlado na criação de vagas", diz o estudo. Parte dos entrevistados também acredita que o tempo de formação mais curto do tecnólogo ainda permite que ele esteja mais atualizado ao se formar.

A pesquisa indica que, até o momento, a qualidade dos tecnólogos formados parece estar satisfazendo o mercado, que lhes dá uma média de 7,1, com 70% dos que fizeram a avaliação atribuindo-lhes notas entre sete e dez.

As áreas em que os tecnólogos são mais reconhecidos são as de mecânica, informática e as relacionadas à construção civil. Ainda segundo o estudo, com o sucesso em termos de qualidade de formação e agilidade no atendimento das demandas do mercado, a predisposição de aumento de contratações é um pouco mais alta do que para a contratação de novos engenheiros (65% contra 62% dos engenheiros).





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