Espaço

Questionado estudo sobre matéria perdida do Universo

Será que encontramos a matéria perdida do Universo?
Com o questionamento das conclusões do estudo, a matéria perdida do Universo e as rajadas rápidas de rádio continuam sendo um mistério a desvendar. [Imagem: Alex Cherney]

Rajada rápida de rádio

Há cerca de uma semana, astrônomos anunciaram ter rastreado pela primeira vez a fonte de uma "rajada rápida de rádio", (RRR, ou FRB na sigla em inglês para fast radio burst), uma explosão de ondas de rádio que libera instantaneamente o equivalente a toda a energia liberada pelo Sol durante um mês.

A causa desses flashes ainda é um mistério, mas descobrir a galáxia de onde um deles se originou teria uma importância que se estenderia por toda a cosmologia.

Evan Keane e seus colegas haviam usado radiotelescópios na Austrália (Parkes) e Alemanha (Effelsberg) para rastrear a RRR, batizada de FRB 150418, e um telescópio óptico no Havaí (Subaru) para rastrear a galáxia de origem. Isso teria permitido não apenas pesar o Universo e encontrar a matéria bariônica perdida, como também estabelecer uma nova forma de medir a expansão do Universo.

Ocorre que a alegada "descoberta" está sendo questionada por outras equipes.

Núcleo galáctico ativo

Dada a importância da alegada descoberta, Peter Williams e colegas do Centro Harvard-Smithsoniano para Astrofísica correram para outro radiotelescópio (VLA em Socorro - EUA) a fim de monitorar a galáxia indicada como fonte da FRB 150418.

Enquanto a equipe original alega que o brilho de rádio da galáxia havia se desvanecido ao longo de seis dias, Williams descobriu que ela havia começado a brilhar novamente, emitindo novos sinais de rádio. Isso não deveria acontecer caso a rajada rápida de rádio se originasse de uma colisão cósmica, como a equipe de Keane afirmou.

Assim, a explicação mais provável é que a galáxia possui um núcleo galáctico ativo, um fenômeno bem conhecido no qual uma região central da galáxia apresenta um brilho variável em vários comprimentos de onda, incluindo a frequência de rádio.

Questionado estudo sobre matéria perdida do Universo
O radiotelescópio de Arecibo pode ter descoberto um novo tipo de rajada rápida de rádio. [Imagem: Louie Psihoyos-Corbis]

RRRs periódicas

Praticamente ao mesmo tempo, Laura Spitler, do Instituto Max Planck de Radioastronomia, usou o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, para descobrir algo que muda todo o pouco que se sabia sobre as rajadas rápidas de rádio.

Laura detectou uma RRR periódica, que emite feixes de ondas de rádio repetidamente, algumas vezes vários deles em menos de um minuto.

Todas as rajadas rápidas de rádio detectadas até agora pareciam ser eventos únicos. Por isso, a maioria das teorias sobre a origem desses pulsos misteriosos envolve incidentes cataclísmicos que destroem sua fonte - uma estrela explodindo como uma supernova, por exemplo, ou uma estrela de nêutrons caindo em um buraco negro.

Não daria então para acomodar essa RRR periódica, mais parecida com um pulsar, com a ideia de Keane e a posterior observação de novos brilhos feitos por Williams?

Laura e seu grupo acreditam que não porque a RRR periódica é muito mais fraca, não batendo com o evento cataclísmico que foi a FRB 150418.

"Entretanto, o aparente conflito entre os estudos poderia ser resolvido se houver pelo menos dois tipos de fontes de RRR," disse a professora Victoria Kaspi, da Universidade McGill, envolvida na observação de Laura.

Ou seja, essa novela que já começa a se estender poderá ter novos capítulos.

Matéria perdida do Universo

No artigo original, Keane e seus colegas afirmam que, como ao viajar até a Terra essas ondas de rádio atravessam toda a matéria no caminho, incluindo a poeira cósmica, a visualização da galáxia e o monitoramento da RRR possibilitara calcular a matéria presente no caminho, realizando uma espécie de pesagem do Universo.

E isso, alega a equipe, teria resolvido um mistério cósmico de longa data, a chamada "matéria perdida" do Universo.

Apenas para relembrar: pelo modelo cosmológico atual, 70% do Universo é formado por energia escura, 25% por matéria escura e 5% pela matéria comum, formada pelos átomos da tabela periódica. O problema é que, até agora, os astrônomos conseguiram detectar apenas metade desses 5% de matéria bariônica, o que levou à cunhagem do termo "matéria perdida" do Universo.

Se a RRR se originasse mesmo da galáxia indicada pela equipe, os dados apontavam que haveria o dobro da matéria que se esperava em relação aos cálculos anteriores, o que significaria que a matéria perdida havia sido encontrada. "A matéria desaparecida não esta mais sumida mais," disse Keane quando da publicação do artigo.

Detecções futuras

De qualquer forma, com tantas possibilidades levantadas com a possível detecção de um único fenômeno, é natural que várias equipes ao redor do mundo comecem a aprimorar suas técnicas para tentar flagrar uma RRR cataclísmica e rastrear sua origem.

Bibliografia:

The host galaxy of a fast radio burst
E. F. Keane et al.
Nature
Vol.: 530, 453-456
DOI: 10.1038/nature17140

Cosmological Origin for FRB 150418? Not So Fast
P. K. G. Williams, E. Berger
arXiv
http://arxiv.org/abs/1602.08434

A repeating fast radio burst
L. G. Spitler, P. Scholz, J. W. T. Hessels, S. Bogdanov, A. Brazier, F. Camilo, S. Chatterjee, J. M. Cordes, F. Crawford, J. Deneva, R. D. Ferdman, P. C. C. Freire, V. M. Kaspi, P. Lazarus, R. Lynch, E. C. Madsen, M. A. McLaughlin, C. Patel, S. M. Ransom, A. Seymour, I. H. Stairs, B. W. Stappers, J. van Leeuwen, W. W. Zhu
Nature
Vol.: Published online
DOI: 10.1038/nature17168




Outras notícias sobre:

Mais Temas