Informática

Morreu Michael L. Dertouzos

"Nós cometemos um grande erro há 300 anos atrás, quando separamos tecnologia e humanismo. É hora de colocá-los juntos novamente."

Nos últimos 40 anos a tecnologia e a ciência distanciaram-se do senso comum. O cidadão médio não consegue entender o que acontece dentro do seu computador, não entende o funcionamento das drogas que prolongam sua vida, nem consegue captar os caminhos que essa era da tecnologia está tomando.

Num tempo de especialização, tratam-se os especialistas como detentores de um conhecimento quase inatingível. E quase sempre o é, para os não iniciados em cada campo. Como explicar nanotecnologia ou mecânica quântica para os cidadãos que pagam pelas pesquisas? Michael Dertouzos tinha a rara capacidade de traduzir inextrincáveis teoremas em frases simples, como simples somos, em essência, todos nós. Chefe do Laboratório de Ciência da Computação do MIT (Massachusetts Institute of Technology), uma das mais renomadas universidades do mundo, não precisaria se preocupar com dar explicações fora dos muros da academia. Mas ele era, antes de tudo, um humanista. Ele não via sentido na tecnologia senão como um meio de ajudar as pessoas.

Grego de nascimento, foi em sua gestão que o MIT se ocupou com computadores de processamento compartilhado, criptografia RSA e X Window. Ele ajudou a criar a ArpaNet, a mãe da Internet. E quando a Internet começou a se espalhar, ele criou o World Wide Web Consortium (W3C), o organismo que padroniza os protocolos de comunicação que viabilizam a rede mundial. Atualmente ele chefiava um projeto chamado Oxigênio que, segundo ele mesmo, destinava-se a tornar os computadores "uma parte tão natural do nosso ambiente quanto o ar que respiramos."

Dertouzos é autor de oito livros, todos voltados à divulgação da tecnologia. O último deles, lançado neste ano, chama-se "A revolução inacabada: o que os computadores podem fazer por nós." Segundo ele, "computadores devem servir às pessoas, não o contrário." Seu maior sucesso, porém, foi O que será?, um "best-seller" sobre como a tecnologia da informação está transformando nossas vidas. Em 1976 ele previu o surgimento do PC e que o computador estaria em quase todos os lares por volta de 1.990. Em 1.980, quando surgiu o PC, ele escreveu um livro sobre os computadores trabalhando em rede e como isto transformaria a economia mundial.

Escritor de talento e cientista apaixonado, não há como render-lhe homenagens senão dando voz às suas próprias mensagens. Em sua última entrevista, falando a professores do MIT, sobre a aplicação do computador à educação, ele disse:

"Não se esqueçam do impacto que o amor tem sobre a educação. Se você é amado pelo seu professor - e eu digo isso no sentido mais inocente, platônico - se seu professor realmente se preocupa com seu bem-estar, e se você sabe que o seu professor irá perguntar a respeito de você mesmo, irá reprimí-lo por não fazer a coisa certa, e irá contar-lhe histórias sobre porque você deve fazer isto ou aquilo, então o aprendizado pode ser inacreditavelmente diferente."

Michael L. Dertouzos ficou conosco por apenas 64 anos. Mas o seu trabalho e suas idéias irão nos acompanhar por muito mais tempo. Descanse em paz.





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