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Busca de vida em outros planetas não pode ser terra-cêntrica

Busca de vida em outros planetas não pode ser terra-cêntrica
Seja algum tipo de vida orgânica em planetas extrassolares ou mesmo tipos exóticos de vida, muito além da vida que conhecemos, o fato é que a busca por vida espalhada pelo Universo agora é uma pesquisa levada a sério.[Imagem: ESO/M. Kornmesser]

Vidas passadas a limpo

Assim que a busca por sinais de vida em outros planetas se estabeleceu como uma disciplina científica de pleno direito, ficou claro que as coisas são bem mais complicadas do que simplesmente colocar um radar no espaço para encontrar discos voadores.

Em vez disso, o caminho natural parece ser identificar bioassinaturas, sinais de processos biológicos nas atmosferas dos exoplanetas que possam ser detectados aqui da Terra.

O problema é que descobertas feitas aqui mesmo no Sistema Solar estão colocando em dúvida as primeiras hipóteses sobre a vida em outros planetas, que se baseiam na definição de zonas habitáveis ou na presença de placas tectônicas nos exoplanetas, por exemplo.

"Vinha sendo padrão pensar que a vida só poderia existir em uma zona estreita perto da estrela de um planeta, porque você precisa estar lá para manter a água líquida," disse Adrian Lenardic, da Universidade Rice, nos EUA. Mas nossas sondas espaciais já mostraram fortes indícios de oceanos subterrâneos nas geladas luas de Júpiter, muito distante do que seria a zona habitável do nosso próprio sistema planetário.

"Isso porque existe uma outra fonte de energia, derivada da intensa atração gravitacional de Júpiter," explicou Lenardic. "Isso ampliou a região do nosso próprio Sistema Solar na qual a vida pode existir, e acho que muito da essência [das próximas pesquisas] é que muito do que estamos vendo está expandindo a zona e expandindo nossas ideias sobre as condições necessárias para a vida. Então, à medida que procuramos vida em torno de outras estrelas, devemos também expandir nossas estratégias de busca ou podemos perder alguma coisa."

O inverso também é verdadeiro: Há poucas semanas, uma molécula que se acreditava ser um indicador de vida foi encontrado onde não há vida.

Busca de vida em outros planetas não pode ser terra-cêntrica
Hoje já se aceita que é grande a chance de haver vida na lua Europa, de Júpiter - Ganimedes e Calisto também parecem ter oceanos líquidos de subsuperfície. [Imagem: NASA/JPL]

O que é vida?

Já foram catalogados mais de 3.700 exoplanetas, e a comunidade astronômica espera com ansiedade o lançamento do Telescópio Espacial James Webb, cujo espelho de sete metros de diâmetro será capaz de examinar as atmosferas dos planetas rochosos em torno de estrelas distantes.

Assim, uma das tarefas será equacionar a busca, chegando a um meio de atribuir uma probabilidade de vida baseada em um determinado conjunto de observações de um planeta.

Para isso, a primeira pergunta básica é: O que é a vida? Não há uma resposta fácil, apesar das inúmeras tentativas de estabelecer definições - cada definição adicional parece aumentar exponencialmente as divergências entre os cientistas.

"Mas se podemos concordar em uma coisa, é que a vida precisa de energia. Nós pensamos sobre o Sol como uma fonte de energia por um longo tempo, e chegamos a calcular a energia interna de um planeta, que vem da decomposição de elementos radioativos dentro do seu interior rochoso. As luas de Júpiter nos ensinaram a calcular também a força das marés, e estamos começando a encontrar exoplanetas que têm órbitas que permitem forças de maré significativas," acrescentou Lenardic.

As placas tectônicas também não parecem ser uma exigência assim tão especial - a tectônica de placas é o processo de larga escala que governa os movimentos da crosta terrestre. "É uma manifestação superficial particular da energia interna de um planeta, mas não é o único modo possível de atividade vulcânica e tectônica em um planeta," disse Lenardic.

"Pode ser fácil ser terra-cêntrico e assumir que a vida exige um planeta como o nosso. Mas o que estamos vendo dentro do nosso Sistema Solar está nos fazendo questionar isso. Uma das coisas que aprendi com a história da exploração do nosso próprio Sistema Solar é que devemos estar preparados para surpresas. À medida que nos movemos para além [do Sistema Solar], em nossa busca pela vida, essa lição está nos levando a adaptar nossas estratégias de busca," finalizou o pesquisador.

Bibliografia:

Exoplanet Biosignatures: Future Directions
Sara I. Walker, William Bains, Leroy Cronin, Shiladitya DasSarma, Sebastian Danielache, Shawn Domagal-Goldman, Betul Kacar, Nancy Y. Kiang, Adrian Lenardic, Christopher T. Reinhard, William Moore, Edward W. Schwieterman, Evgenya L. Shkolnik, Harrison B. Smith
Astrobiology
Vol.: 1 pp 1-20
DOI: 10.1007/978-3-319-30648-3_65-1
https://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1705/1705.08071.pdf

Volcanic-Tectonic Modes and Planetary Life Potential
Adrian Lenardic
Handbook of Exoplanets




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