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Métrica financeira compromete inovação nos EUA, diz especialista

Com informações da Agência Fapesp - 29/06/2016

Descompasso entre necessidade e investimento

As grandes empresas de tecnologia norte-americanas têm-se tornado cada vez mais dependentes da aquisição de pequenas empresas emergentes de alta tecnologia (startups) para desenvolver novas soluções que possam resultar em produtos, processos e serviços inovadores.

O apoio de fundos de capital de risco (venture capital) a startups em fase inicial nos Estados Unidos, contudo, vem diminuindo na maioria das áreas tecnológicas.

Esse desequilíbrio entre a dependência cada vez maior das grandes empresas de tecnologia norte-americanas por pequenas empresas emergentes para inovar e a redução do apoio dos fundos de capital de risco a uma fase crucial para essas firmas nascentes de base tecnológica - em que precisam demonstrar a viabilidade das tecnologias que desenvolvem para obter investimento - tem gerado uma lacuna no sistema de inovação norte-americano.

A avaliação foi feita por William Bonvillian, diretor do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) durante evento sobre "Prosperidade Local por meio de Negócios baseados em Ciência de Classe Mundial", realizado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Capital financeiro sem visão de longo prazo

De acordo com dados da Fundação de Informações Sobre Ciência e Tecnologia (ITIF), dos Estados Unidos, apresentados por Bonvillian, o investimento em pesquisa básica e aplicada de longo prazo e alto risco por empresas norte-americanas caiu de cerca de 30% (1985-2000) para 26% (2010-2013).

Uma das razões apontadas pelo pesquisador para a redução é o modelo de avaliação de desempenho adotado pelo sistema financeiro, que usa uma métrica que não leva em conta a capacidade de inovação - o potencial de abertura de novos mercados, por exemplo -, mas a rentabilidade a curto prazo.

Essa métrica financeira tem induzido as empresas norte-americanas de capital aberto a se concentrar em suas principais competências - como a de produzir com eficiência e menor custo - e evitar ao máximo que riscos possam comprometer a rentabilidade para os acionistas a curto prazo.

Adicionalmente, segundo o especialista, tem diminuído o apoio financeiro à inicialização de startups nos Estados Unidos por fundos de capital de risco na maioria das áreas tecnológicas - exceto para as de desenvolvimento de software e tecnologia da informação (TI).

"Os fundos de capital de risco, em geral, preferem investir em startups que desenvolvem softwares ou atuam no setor de TI, por exemplo, porque apresentam menor risco e alto retorno do investimento", disse.

Tecnologia de setores maduros

startups de áreas como energia têm maior risco e menor retorno de investimentos, o que as está deixando de fora. Do total de US$ 25 bilhões que fundos de capital de risco investiram em startups norte-americanas no campo das energias limpas entre 2006 e 2011, foi obtido um retorno equivalente a menos da metade do capital investido.

Esse baixo retorno de investimento fez com que o financiamento para startups nessa área nos Estados Unidos secasse.

Consequentemente, vem diminuindo o número de startups voltadas a desenvolver tecnologias para setores chamados de maduros, como energia, mineração e automotivo, que representam cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano e são mais resistentes à inovação, apontou Bonvillian.

Pomares de inovação

A fim de preencher essa lacuna do baixo estímulo às empresas de alta tecnologia não relacionadas à TI, têm surgido programas nos EUA como o SunShot, lançado pelo Departamento de Energia para tornar a energia solar produzida no país mais competitiva até 2020. São 61 startups apoiadas desde que o programa foi criado.

"O problema do programa SunShot é que ele é voltado apenas à energia solar e o objetivo principal é diminuir o custo de geração. Isso não está ajudando efetivamente a estimular a criação de startups", avaliou Bonvillian.

Um comitê criado em 2011 pelo presidente Barack Obama para definir políticas voltadas ao desenvolvimento do setor industrial dos Estados Unidos e manter vantagens competitivas em tecnologias emergentes, reconheceu que há uma lacuna no sistema de inovação no país no financiamento para escalonar startups e tentou encontrar novos mecanismos de apoio financeiro, contou o pesquisador.

A conclusão, contudo, é que não é um bom momento para o país criar novos programas caros e nenhuma alternativa viável foi identificada. "Serão necessários novos modelos de política de inovação para corrigir esse problema e usar ativos existentes em laboratórios, universidades e instituições de pesquisa nos Estados Unidos para apoiar startups", estimou Bonvillian.

O atual reitor do MIT, Rafael Reif, por exemplo, propôs a criação de incubadoras que ele chama de "pomares de inovação", locais onde empreendedores podem ter um espaço físico e receber orientação e financiamento de instituições públicas e privadas para transformar ideias de tecnologias em produtos viáveis no prazo de cinco anos e se tornarem atrativos para fundos de capital de risco. "Programas como esse podem ajudar a acelerar a inovação no país", avaliou Bonvillian.





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