Energia

Projeto de fusão nuclear começa a dar sinais de fissão
Ainda antes do ITER, o Joint European Torus (JET) pretende demonstrar que o conceito baseado em um tokamak é capaz de gerar mais energia do que consome. [Imagem: EFDA]

Roteiro para energia da fusão

A Agência Europeia para o Desenvolvimento da Fusão Nuclear (EFDA) publicou um roteiro que descreve os passos para fornecer energia elétrica baseada em fusão nuclear à rede pública.

Os técnicos da agência preveem que isso possa acontecer por volta de 2050.

O documento, chamado Roteiro para a Concretização da Energia de Fusão, organiza este processo em uma sequência de "missões".

Para cada missão, é analisado o estado atual das pesquisas, são identificadas as questões em aberto, é proposto um programa de pesquisa e desenvolvimento e são estimados os recursos necessários.

O roteiro aponta a necessidade de intensificar o envolvimento industrial e de maximizar as oportunidades de colaboração fora da Europa - o experimento de fusão nuclear ITER está localizado na França, embora seja uma parceria internacional envolvendo, além da União Europeia, China, Índia, Japão, Rússia, Coréia do Sul e Estados Unidos.

Energia da fusão nuclear

O objetivo das pesquisas em fusão nuclear é replicar na Terra o mecanismo de geração de energia das estrelas, através da fusão de núcleos de hidrogênio. A energia de fusão é praticamente ilimitada, uma vez que se baseia em matérias-primas abundantes: deutério e lítio.

A fusão nuclear, ao contrário da fissão nuclear, usada pelas bombas atômicas, é uma fonte de energia limpa, não gerando resíduos radioativos de longa duração e nem gases de efeito de estufa. Ela é também intrinsecamente segura, uma vez que o processo não produz reações em cadeia.

Outros experimentos já conseguiram gerar energia a partir da fusão nuclear controlada, mas, por enquanto, é preciso fornecer mais energia do que aquela que se consegue extrair.

O experimento internacional ITER, que começará a funcionar em 2020, será o primeiro dispositivo a alcançar um excedente de energia de fusão: serão obtidos 500 megawatts a partir de uma energia inicial de 50 megawatts.

Ainda assim, o ITER, que custará três vezes mais do que o LHC, será apenas um laboratório, abrindo as portas para a criação de futuras usinas de fusão nuclear comerciais.

Fissão nas parcerias

Embora não explicite a questão, o documento europeu vem se somar a outros indícios de que, vencida a etapa inicial, cada região deverá prosseguir seu rumo independentemente em busca da fusão nuclear.

Isso por razões econômicas e estratégicas - o poder auferido pelo domínio da tecnologia de fusão nuclear seria quase tão grande quanto a própria energia gerada -, mas também por razões científicas, já que nem todos os físicos concordam em qual é o melhor caminho para domar a energia das estrelas.

A China, por exemplo, está lançando um programa agressivo destinado à produção de eletricidade baseada em fusão nuclear muito antes de 2050.

"A Europa só pode manter o ritmo se concentrar os seus esforços e seguir uma abordagem pragmática para a energia de fusão", afirmou Francesco Romanelli, diretor da EFDA.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuam investindo na fusão nuclear a laser.

Projeto de fusão nuclear começa a dar sinais de fissão
Há poucos dias foi assinado o contrato para construção do prédio principal do ITER, onde ficará o Tokamak, a um custo de €300 milhões. [Imagem: EFDA]

ITER e DEMO

O projeto europeu começa fundamentado no ITER, mas depois aponta para caminhos regionais.

O roteiro abrange três períodos: o próximo Programa-Quadro Europeu de Investigação, chamado Horizonte 2020, o período 2021-2030 e o período 2031-2050.

O ITER é a principal aposta desse roteiro, uma vez que é lá que se espera que sejam atingidos muitos dos marcos mais relevantes no caminho para a energia de fusão.

Assim, a grande maioria dos recursos propostos para o Horizonte 2020 são dedicados ao ITER e às suas experiências de acompanhamento.

O segundo período é centrado na maximização da exploração do ITER e na preparação da construção de uma central de demonstração - DEMO - que será a primeira a fornecer energia de fusão para a rede elétrica.

Finalmente, a construção e operação do DEMO são o objetivo da derradeira fase do roteiro, a se completar por volta de 2050.

Do público ao privado

Outra novidade da proposta europeia é que o programa de fusão nuclear evoluirá de uma perspectiva centrada nos laboratórios e na ciência rumo a um empreendimento orientado para a indústria e a tecnologia.

Não é para menos: só a construção do ITER já movimenta um volume de negócios de cerca de €6 bilhões - há poucos dias foi assinado o contrato para construção do prédio principal do complexo, onde ficará o Tokamak, a um custo de €300 milhões.

O novo roteiro privatiza o restante do caminho: a concepção, construção e operação da usina DEMO terão um envolvimento total da indústria.

Segundo o documento, o objetivo é assegurar que, após um período inicial de testes, a iniciativa privada possa assumir a responsabilidade pela comercialização da energia de fusão nuclear - ou seja, os custos iniciais, de alto risco, serão públicos, mas os lucros, de menor risco, serão privados.





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