Agostinho Rosa - 13/02/2026

Verdades científicas
Se você gosta de "verdades" bem estabelecidas, daquele tipo que não muda nunca, não deve gostar muito de ciência. A ciência não trabalha com verdades definitivas: O saber científico é feito por aproximações sucessivas, algumas vezes mostrando-se incorreto, mas na maioria delas tornando-se cada vez mais preciso, com descobertas que refinam nosso conhecimento.
Em outras palavras, o conhecimento científico tem um caráter provisório e cumulativo, com a dúvida metódica substituindo as crenças imutáveis e os dogmas - você precisa conviver bem com a incerteza para ser um bom cientista.
Veja, por exemplo, o caso das auroras. Faça uma pesquisa e rapidamente descobrirá que as luzes deslumbrantes das auroras boreal e austral são criadas quando partículas de alta energia vindas do espaço colidem com partículas na atmosfera da Terra.
Então podemos encerrar o assunto sobre a geração das auroras, já que sabemos sua causa? Certamente que não. Por exemplo: O que alimenta os campos elétricos que aceleram essas partículas para que as auroras possam ser finalmente produzidas?
Bom, prepare-se então para colocar mais um tijolinho naquela construção que se costuma chamar de "verdade científica" - a propósito, uma construção que não almeja ser finalizada, mas tornar-se cada vez mais ampla.
Sheng Tian e colegas das universidades de Hong Kong e Califórnia acabam de descobrir que existe uma espécie de "bateria espacial", na verdade um fenômeno que contém as cargas que impulsionam as partículas que, quando se chocam, criam as auroras.

Bateria de ondas
Antes de continuar, é bom esclarecer que a tal "bateria espacial" é uma metáfora: Não há de fato uma estrutura que nem de perto lembre o objeto bateria, mas um fenômeno que cumpre uma função de conter cargas que alimentam o processo que finalmente irá gerar as auroras.
O fenômeno engloba as ondas de Alfvén, ondas de plasma que viajam ao longo das linhas do campo magnético da Terra - Hannes Alfvén (1908-1995) teorizou em 1942 um tipo de onda magnetohidrodinâmica de baixa frequência que se propaga na direção do campo magnético, através da oscilação dos íons no plasma.
São essas ondas que funcionam como uma fonte de energia invisível, alimentando as deslumbrantes auroras que vemos no céu. Ao analisar como as partículas carregadas se movem e ganham energia em diferentes regiões do espaço, os pesquisadores demonstraram que essas ondas atuam como um acelerador natural de partículas, fornecendo a energia que impulsiona as partículas carregadas para a atmosfera, finalmente produzindo as luzes brilhantes das auroras.

Será, professor?
As ondas de Alfvén transferem energia continuamente para a região de aceleração auroral, mantendo os campos elétricos que, de outro modo, se dissipariam. É por isso que os cientistas usaram a metáfora da "bateria espacial".
"Essa descoberta não apenas fornece uma resposta definitiva para a física da aurora da Terra, mas também oferece um modelo universal aplicável a outros planetas do nosso Sistema Solar e além," disse o professor Zhonghua Yao.
É claro que, depois da nossa introdução, é fácil perceber que o cientista deixou escapar a expressão "resposta definitiva". Você apostaria nisso?