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Meio ambiente

IPCC divulgou alerta não-científico sobre geleiras do Himalaia

Redação do Site Inovação Tecnológica - 20/01/2010

Climagate 2: IPCC divulgou alerta não-científico sobre geleiras do Himalaia
O "comentário especulativo" foi extrapolado pelos autores do relatório do IPCC para incluir todas as geleiras no Himalaia, e não apenas as centrais e orientais.
[Imagem: Wikimedia/Amar]

Sem ciência

Não deu tempo para a comunidade científica se refazer do Climagate e nem tampouco para o público se recuperar da estupefação quanto ao fracasso da reunião de Copenhague - já está na imprensa uma espécie de Climagate 2.

Você ouviu falar em algum lugar que o aquecimento global causará o desaparecimento das geleiras do Himalaia até 2035? Então é melhor tentar esquecer isto.

Nesta semana, glaciologistas entraram em clima de guerra com o IPCC - o Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudanças Climáticas da ONU - pela inclusão, no relatório de 2007 da instituição, de uma declaração sem bases científicas sobre esse eventual derretimento das geleiras do Himalaia.

Dado especulativo

Uma reportagem publicada na revista britânica New Scientist parece ter sido o pivô de toda a desavença. E, se correta, a história é de fato muito problemática para o IPCC.

Em 1999, a New Scientist publicou um comentário do glaciologista indiano Syed Hasnain, que disse em uma entrevista por email que todas as geleiras no Himalaia central e oriental poderiam desaparecer até 2035.

Mas Hasnain, da Universidade Jawaharlal Nehru em Nova Deli, que era então presidente grupo de trabalho sobre glaciologia do Himalaia, nunca repetiu essa previsão em um artigo científico e nem tampouco publicou-a em um periódico revisado por outros cientistas - uma condição essencial para que uma pesquisa seja aceita como "científica."

Comentando novamente o assunto, a pedido da revista, ele agora diz que o comentário foi "especulativo".

Isto torna o artigo da revista - que é uma revista de popularização da ciência e não uma revista científica - a única fonte do argumento sobre o alegado desaparecimento das geleiras do Himalaia.

Mas isso não impediu que ele encontrasse abrigo no relatório de 2007 do IPCC.

Alarmismo

Mas isto não foi tudo. O "comentário especulativo" foi extrapolado pelos autores do relatório do IPCC para incluir todas as geleiras no Himalaia, e não apenas as centrais e orientais.

A inclusão desta declaração não passou em branco entre outros estudiosos do assunto, tendo irritado inúmeros glaciologistas, que consideraram a alegação como injustificada.

Vijay Raina, um dos mais respeitados glaciologistas da Índia, escreveu em um artigo de discussão publicado pelo governo indiano em novembro que não há nenhum sinal de recuo "anormal" nas geleiras do Himalaia. O Ministro do Meio Ambiente da Índia, Jairam Ramesh, acusou o IPCC de ser "alarmista".

Perdendo a compostura

O IPCC se defendeu, alegando que o artigo publicado pelo governo indiano não foi revisado pelos pares. Rajendra Pachauri chamou o texto de "ciência voodoo" e afirmou que "nós temos uma ideia muito clara do que está acontecendo no Himalaia," sem especificar o que estaria então acontecendo ou se existem novas pesquisas endossando a argumento do órgão que ele preside.

Mas o próprio relatório do IPCC cita a fonte da previsão como sendo um documento publicado pela organização ambientalista WWF em 2005. O documento da WWF, por sua vez, cita como fonte o artigo de 1999 da New Scientist, sem nem mesmo endossá-lo. Nada de artigo científico.

Dados especulativos

E o relatório do IPCC vai ainda mais longe, concluindo, sem citar outras evidências, que a previsão do desaparecimento das geleiras do Himalaia em 2035 é "muito provável", um termo que o órgão diz significar uma probabilidade superior a 90 por cento - a conclusão de que o aquecimento global é causado pelo homem recebe a mesma classificação.

Hasnain rejeita totalmente a inclusão do seu comentário como se fosse uma conclusão científica. Ele culpa o IPCC pelo mau uso de um comentário que ele fez para um jornalista. "O número mágico de 2035, não foi mencionado em nenhum artigo científico escrito por mim, já que nenhum jornal revisado pelos pares iria aceitar dados especulativos," disse ele à New Scientist.

"Eu avisei"

Mas os cientistas indianos não estão sozinhos.

George Kaser, cientista do Instituto de Glaciologia de Innsbruck, na Áustria, afirmou ter informado seus colegas do IPCC sobre o erro no fim de 2006. "Foi depois da última revisão, mas antes da publicação, portanto existia a possibilidade de modificar o texto", disse Kaser à Agência France Presse.

"Eu disse a eles", insistiu. "Mas, por motivos que desconheço, ninguém reagiu." O professor Kaser confessou temer que este "caso" afete mais uma vez a credibilidade dos especialistas e dos relatórios do IPCC.

O resultado foi que, no seu quarto relatório, publicado em 2007, o IPCC advertiu que as geleiras da cordilheira do Himalaia estariam derretendo mais rapidamente do que as outras geleiras do mundo, e que "poderiam desaparecer até 2035 ou mesmo antes".

Editorial

O IPCC deixou de ser um mero comitê da ONU e se tornou uma instituição de importância e interesse mundiais, sobretudo depois que o órgão ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Nos mais diversos aspectos, o IPCC é uma conquista de todos quantos se preocupam com a preservação do meio ambiente e com a criação de uma economia de base sustentável.

Essa conquista, desde o início, fez-se a partir de estudos científicos. O IPCC talvez seja a primeira instituição com significação mundial que não surgiu de movimentos políticos - o IPCC é um filho da ciência.

Isto torna extremamente preocupantes os últimos acontecimentos e denúncias sobre práticas não-científicas e até não-éticas dentro do órgão. Práticas dessa natureza, se devidamente confirmadas, ameaçam a credibilidade não apenas dos estudos climáticos, mas de toda a ciência. Torna-se muito mais difícil obter apoio da população para qualquer pesquisa, ou convencer as pessoas de que elas devem seguir recomendações feitas pelos cientistas, seja quanto ao clima, à saúde ou a qualquer outra área, se ficar demonstrado que as recomendações dos cientistas podem não ser assim tão científicas.

A exemplo do que está ocorrendo com a Organização Mundial da Saúde, com respeito à Gripe A, seria mais do que recomendável uma investigação cuidadosa e isenta dentro do IPCC. A correção de relatórios eventualmente incorretos e o afastamento de responsáveis por práticas questionáveis representarão o menor dos males. O essencial é preservar o IPCC e reconstruir sua credibilidade junto ao público. Para que o público continue dando suporte às descobertas científicas e dirija a classe política no rumo da adoção de medidas responsáveis.

É preciso evitar que o fracasso de Copenhague não se faça seguir da ruína do principal órgão de defesa do meio ambiente.

Agostinho Rosa
Editor







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