Redação do Site Inovação Tecnológica - 02/06/2026

Amplificando o fluxo de calor
No nosso dia a dia, o calor se comporta de maneiras bem previsíveis: Uma xícara de café quente esfria, um cubo de gelo derrete, o Sol aquece a Terra e por aí vai. Mas, quando chegamos na escala dos nanômetros, essas regras começam a falhar: O calor endurece os metais, em vez de derretê-los, o calor dá marcha-a-ré, ele pode se mover como uma onda ou mesmo fluir na forma de um calor viscoso.
A boa notícia é que os cientistas estão aprendendo a tirar proveito desses comportamentos anômalos.
Zexiao Wang e colegas de três universidades norte-americanas demonstraram agora como manipular o calor de forma muito mais poderosa do que se acreditava possível, bastando para isso tirar proveito dos já conhecidos metamateriais, materiais artificiais cujas propriedades são ditadas pela sua estrutura física, e não por sua composição química.
No cerne da descoberta está um fenômeno chamado transferência de calor radiativa de campo próximo: Quando dois objetos são colocados extremamente próximos um do outro - a apenas algumas centenas de nanômetros de distância - o calor não se irradia simplesmente da maneira usual. Em vez disso, ele pode atravessar o espaço por meio de ondas eletromagnéticas (lembre-se do calor fluindo como uma onda), aumentando drasticamente a quantidade de energia que flui entre os dois objetos.

Metamateriais para o calor
A inovação está no projeto de metamateriais que intensificam muito o fenômeno do calor radiativo, a ponto de torná-lo útil para aplicações práticas.
"Ao contrário dos materiais convencionais, os metamateriais são construídos com padrões minúsculos e repetitivos que interagem com a energia de maneiras precisas," explicou o professor Sheng Shen, da Universidade Carnegie Mellon. "Nós padronizamos estruturas microscópicas de ouro em membranas finas e as posicionamos frente a frente através de um espaço em nanoescala. Isso aumentou a transferência de calor em até quatro vezes em comparação com configurações semelhantes sem metamateriais, o que está muito além do que a física tradicional preveria em distâncias maiores."
Essas estruturas microscópicas, que são os meta-átomos que formam os metamateriais, atuam cooperativamente, cada uma amplificando o efeito gerado por suas vizinhas.
"Em vez de simplesmente adicionar mais caminhos para o calor, as estruturas de ouro interagem com ondas de energia que ocorrem naturalmente no material, conhecidas como polaritons de fônons de superfície, criando um efeito de ressonância," explicou Wang. "Essas vibrações acopladas permitem que a energia se mova de forma mais livre e eficiente através do espaço."

Aplicações práticas
As implicações dessa manipulação do calor por metamateriais prometem ser significativas. À medida que os dispositivos eletrônicos diminuem de tamanho e o poder computacional aumenta, o gerenciamento de calor tornou-se um dos maiores desafios da engenharia. Assim, a capacidade de controlar com precisão o fluxo de calor pode levar a novas estratégias de resfriamento para chips, computadores e outros sistemas de alto desempenho - amplificar o fluxo de calor significa que será possível extrair mais calor por unidade de tempo.
A área da energia também tem a ganhar: Tecnologias que convertem calor em eletricidade, como os sistemas termofotovoltaicos, dependem da movimentação da radiação térmica, de modo que o aprimoramento desse processo poderá torná-las significativamente mais práticas.
Nas tecnologias de sensoriamento, como o infravermelho, sinais de calor mais fortes e controláveis podem melhorar as capacidades de detecção em praticamente todas as áreas, do monitoramento ambiental ao controle de aparelhos eletrônicos.
"Se o calor puder ser controlado com a mesma precisão que a eletricidade ou a luz, isso poderá abrir as portas para uma nova classe de tecnologias construídas não apenas para suportar o calor, mas para tirar proveito dele," finalizou Shen.