Redação do Site Inovação Tecnológica - 09/07/2026

Não é preciso desdobrar a madeira
Se você ouvir um marceneiro falar em "desdobrar a madeira", ele não está falando em mágica: Desdobrar é o termo para seccionar a madeira de modo que ela possa ser usada. Normalmente feito em uma serraria, o corte consiste em transformar um tronco em pranchas e tábuas (corte na longitudinal) ou em bolachas (corte na transversal).
Mas tanto a mágica quanto o trabalho de serrar podem ser de todo dispensados, garante uma equipe da Universidade de Aalto, na Finlândia.
Jaakko Torvinen e seus colegas criaram o primeiro teste estrutural que permite usar troncos tortos, o que permitirá que madeiras fora do padrão - não retas, bifurcadas e até com dupla curvatura - sejam usadas como colunas de sustentação na construção civil.
A equipe demonstrou como métodos de cálculo padrão, utilizados no dia a dia, podem prever a capacidade de carga de toras com formato orgânico. Trata-se, na verdade, de equações bastante simples, que podem ser usadas para avaliar a capacidade de carga de cada tronco, caso a caso, permitindo seu uso estrutural.
"O surpreendente é que ninguém tenha feito isso antes," disse Torvinen. "Estamos tão acostumados a pensar em termos de tábuas ou vigas padronizadas. Isso explica por que ninguém nunca olhou para o tronco de uma árvore e criou um algoritmo para avaliar sua resistência."

Pau que nasce torto também é forte
O pesquisador voltou sua atenção para segmentos superiores de árvores colhidas industrialmente na Finlândia. Caracterizadas por diversas morfologias, os espécimes tipicamente apresentavam diâmetros na base variando de 96 mm a 187 mm e comprimentos entre 2,4 e 2,5 metros de comprimento.
Apesar das variações de forma e espessura e das características dos "defeitos", testes mecânicos revelaram padrões de comportamento semelhantes: Um comportamento não linear de carga-deformação e flambagem das fibras sob compressão, e ruptura por tração aproximadamente no meio do vão. Os espécimes bifurcados apresentaram fraturas na seção superior, mais espessa, da bifurcação.
A surpresa é que duas equações bem conhecidas e largamente discutidas na literatura (ver bibliografia abaixo) conseguiram estimar com folga as fraturas observadas em laboratório. Isso significa que essas equações podem ser usadas para calcular com antecipação, de modo não-destrutivo, que carga um determinado tronco torto irá suportar sem romper.
"Cálculos comparativos com um modelo analítico simplificado, considerando curvaturas e diâmetros, demonstraram resultados conservadores. Este estudo mostrou que a capacidade de carga estrutural de madeira redonda curvada e bifurcada pode ser estimada utilizando os métodos de cálculo atuais," escreveu a equipe.
A expectativa é que este estudo teórico-experimental viabilize o aproveitamento da "madeira não convencional", revelando a viabilidade do seu uso na construção. "Em projetos futuros, quando um projetista ou cliente quiser madeira não convencional em um edifício, isso não será motivo de riso como uma quebra de gelo, mas sim considerado uma proposta de projeto legítima como qualquer outra," disse Torvinen.