Redação do Site Inovação Tecnológica - 10/07/2026

Som do buraco negro
Não adianta tentar gritar no espaço porque, mesmo que você conseguisse, ninguém poderia ouvi-lo porque não há meio de propagação para as ondas de compressão que compõem o som.
Mas parece que é possível ouvir o som de uma colisão quando dois buracos negros se chocam.
Usando como laboratório a onda gravitacional mais forte já registrada até hoje, Neil Lu e seus colegas da Austrália, Espanha e EUA afirmam ter desenvolvido uma técnica que permite "escutar" o horizonte de eventos se formando no exato momento da colisão (entre duas estrelas de nêutrons ou dois buracos negros preexistentes), pouco antes de toda a matéria e a luz serem engolidos pelo buraco negro recém-formado.
O horizonte de eventos é a fronteira ao redor de um buraco negro, além da qual nada pode escapar, nem mesmo a luz. Nessa fronteira, a velocidade necessária para se libertar da gravidade do buraco negro é igual à velocidade da luz. Como nada no Universo viaja mais rápido do que a luz, tudo o que cruza o horizonte de eventos fica permanentemente aprisionado.
A descoberta consiste em uma nova forma de analisar os dados, criando uma janela de observação para a região mais próxima do horizonte de eventos, onde a física quântica e as teorias da relatividade geral se cruzam.
"Nós medimos o último som emitido pelos buracos negros quando colidiram. Oculto nesse sinal está um pequeno componente, chamado ondas diretas, que não era bem compreendido anteriormente," disse Lu, da Universidade Nacional Australiana. "Nossa nova análise nos permite decifrar esse componente e extrair informações únicas de perto do horizonte de eventos."

Ondas diretas
A nova técnica analítica permite estudar a intensidade da gravidade extrema no horizonte de eventos do buraco negro e fenômenos como o arrasto de referenciais, pelo qual os buracos negros literalmente arrastam o tecido do espaço-tempo à sua volta, criando um ambiente onde nada consegue permanecer estacionário em relação a um observador distante como nós.
A equipe estudou o sinal de onda gravitacional GW250114, registrado no ano passado, o mais forte já obtido. O GW250114 foi cerca de três vezes mais forte do que o primeiro sinal de onda gravitacional detectado há uma década.
Os dados mostraram que a onda direta - o som do horizonte de eventos, embutido na onda gravitacional - oscila a cerca de duas vezes a rotação do buraco negro, refletindo o arrasto do horizonte de eventos, e decai a uma taxa crescente caracterizada por sua gravidade superficial.
"Nossa análise mostra que esse sinal excepcionalmente forte pode ser usado como uma poderosa sonda do horizonte de eventos do buraco negro remanescente, permitindo-nos medir suas duas propriedades fundamentais: Frequência de rotação e gravidade superficial," disse a professora Ling Sun.
"Essas medições representam um primeiro passo rumo a futuros testes da relatividade geral com ondas diretas," acrescentou Lu.