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Principal indício observacional da matéria escura cai por terra

Redação do Site Inovação Tecnológica - 02/07/2026

Cai por terra principal indício observacional da matéria escura
Imagem do telescópio Webb da região interna do Aglomerado da Bala. A cor rosa representa o gás quente, enquanto a distribuição da matéria escura é mostrada em azul. De acordo com o novo estudo, estrelas de nêutrons e buracos negros explicariam o efeito atribuído à matéria escura.
[Imagem: NASA/ESA/CSA/STScI/CXC;James Jee;Sangjun Cha;Kyle Finner]

Gravidade modificada vence de novo

Apesar de ter perdido sua atratividade, devido à falta de evidências experimentais e observacionais, a matéria escura continua sendo o rótulo mais usado quando queremos nos referir à nossa ignorância sobre o que mantém as galáxias coesas.

E talvez aquele que seja o maior trunfo observacional dos defensores da existência dessa substância elusiva acaba de também cair por terra.

Depois de analisar novos dados e imagens atuais, feitas pelo telescópio espacial James Webb, uma equipe internacional de astrofísicos e cosmologistas concluiu que o curioso Aglomerado da Bala não pode ser considerado uma evidência da existência da matéria escura porque sua curiosa estrutura pode ser explicada por uma teoria alternativa, a teoria MOND, ou Dinâmica Newtoniana Modificada, que dispensa totalmente a existência de uma substância adicional.

A dinâmica newtoniana modificada foi proposta há mais de 40 anos, mas tem sido considerada uma teoria marginal principalmente porque se supunha que ela não poderia explicar as observações no Aglomerado da Bala.

"No entanto, mostramos em nosso estudo que, pelo contrário, o Aglomerado da Bala é particularmente consistente com o cenário MOND," disse Dong Zhang, membro da equipe. De fato, o novos dados do James Webb permitiram à equipe fazer um cálculo melhor e mais preciso do número de estrelas em ambos os aglomerados, alterando as conclusões anteriores.

Entendendo o Aglomerado da Bala

Há cerca de 4 bilhões de anos, ocorreu uma enorme colisão no espaço: Dois aglomerados de galáxias, com centenas de galáxias cada um, colidiram a velocidades superiores a 2.500 quilômetros por segundo. Apesar dos seus bilhões de estrelas, contudo, a maior parte da matéria visível dos aglomerados de galáxias é gás interestelar.

Assim, conforme as duas nuvens de gás se cruzavam, elas foram significativamente desaceleradas pelas forças de atrito, o que também gerou um aquecimento. Usando telescópios de raios X, as nuvens quentes podem ser vistas da Terra como duas manchas difusas relativamente próximas uma da outra.

As galáxias nos dois aglomerados, no entanto, conseguiram passar praticamente incólumes umas pelas outras porque a distância entre as estrelas individuais é tão grande que se torna muito improvável que elas se choquem. Os dois aglomerados de galáxias foram, assim, separados do gás interestelar que carregavam consigo.

O Aglomerado 1 está agora à esquerda da nuvem de gás da esquerda, e o Aglomerado 2 está à direita da nuvem da direita. Juntas, essas quatro estruturas formam o que é conhecido como Aglomerado da Bala. Ele ganhou fama entre os astrofísicos porque é considerado uma evidência convincente da existência da matéria escura, já que a massa das estrelas observadas e do gás interestelar não conseguiriam explicar toda a gravidade necessária para que a coisa funcionasse.

O raciocínio é o seguinte: Se você observar atentamente as imagens, vai notar que as galáxias atrás do Aglomerado da Bala aparecem distorcidas em forma de crescente devido ao efeito de lente gravitacional, segundo o qual grandes massas desviam a luz. Contudo, o desvio observado não é particularmente forte na região das duas nuvens luminosas de matéria - ou seja, onde a maior concentração de massa deveria estar. Em vez disso, os aglomerados de galáxias à direita e à esquerda exercem um efeito de lente muito mais forte, apesar de sua baixa massa. Assim, parece que há mais matéria escondida ali, que não conseguimos ver - esta seria a matéria escura.

Dispensando a matéria escura

De acordo com a teoria atual, a matéria escura exerce força gravitacional, mas não interage com a matéria normal. Consequentemente, ao contrário das nuvens de gás, ela não é desacelerada pelo atrito e também não se separa da matéria visível nos aglomerados de galáxias.

Os novos dados do telescópio Webb, contudo, permitiram refazer as estimativas do número de estrelas em cada aglomerado, e a matéria visível adicional encontrada dispensa em larga medida a adição da matéria escura, tornando o modelo MOND muito mais plausível.

Também se sabe hoje que o Aglomerado da Bala contém um grande número de elementos pesados, como ferro e oxigênio. Eles são produzidos em processos de fusão dentro das estrelas, mas apenas se as estrelas forem muito massivas. "Se estrelas massivas eventualmente se desintegrarem, elas se tornam estrelas de nêutrons ou buracos negros," explicou Zhang. "Assim como a matéria escura, ambos são invisíveis e só podem ser detectados pelas enormes forças gravitacionais que exercem."

As novas observações permitiram demonstrar que o efeito de lente gravitacional observado pode ser explicado pelo número recém-calculado de estrelas visíveis, estrelas de nêutrons e buracos negros. "Os remanescentes de estrelas massivas assumem, em certa medida, o papel da matéria escura no cenário MOND," detalhou o professor Pavel Kroupa. "Mesmo no modelo padrão, que pressupõe a existência de matéria escura, sua quantidade postulada teria que ser significativamente reduzida - em cerca de metade."

Bibliografia:

Artigo: Baryonic mass budgets in the central regions of the Bullet Cluster and their consistency with strong lensing in MOND
Autores: Dong Zhang, Hosein Haghi, Elena Asencio, Indranil Banik, Akram Hasani Zonoozi, Sangjun Cha, Boseong Young Cho, Hyungjin Joo, Pavel Kroupa, Anastasiia Lazutkina, Eda Gjergo
Revista: Physical Review D
DOI: 10.1103/6zrp-q7c4
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