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Academia deve criar ambiente propício para estudos inovadores

Academia deve criar ambiente propício para estudos inovadores
"Os cientistas precisam saber o que está ocorrendo fora de suas áreas de estudo para se tornarem mais inovadores em seus campos de pesquisa."[Imagem: Jon Friedman/UCSF]

Papos científicos

Na Universidade da Califórnia, em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, às sextas-feiras, um grupo rotativo de 50 professores de diferentes departamentos da instituição se reúne durante o almoço para debater pesquisas em andamento em diferentes áreas.

Periodicamente, duplas de professores também realizam minicursos intensivos, com duração de duas semanas e voltados para grupos de até 12 estudantes, nos quais abordam lacunas do conhecimento em suas respectivas áreas de pesquisa.

As duas iniciativas, além da própria maneira como os edifícios e os programas de pesquisa desenvolvidos no novo campus da instituição foram planejados e construídos, integram um conjunto de medidas colocadas em ação pela universidade norte-americana nos últimos anos de modo a promover uma colisão aleatória de pessoas e ideias em suas dependências - e, com isso, criar um ambiente propício para o surgimento de pesquisas inovadoras.

O relato foi feito por Bruce Alberts, professor emérito do Departamento de Bioquímica e Biofísica da UCSF e conselheiro do presidente Barack Obama para assuntos de ciência e tecnologia, durante conferência no auditório da FAPESP com o tema "Excelência Científica: caminhos e modos de difusão".

Cultura de cooperação

Na avaliação de Alberts, que também é editor-chefe da revista Science, é preciso que as universidades e instituições de pesquisa se estruturem e organizem programas de pesquisa de modo a estimular a realização de estudos inovadores e ciência de excelência.

Uma das formas para fazer isso - que Alberts indicou com base em mais de 30 anos lidando com universidades e instituições de pesquisa e com política científica e tecnológica - é apoiar um conjunto de laboratórios de tamanho modesto, com no máximo 12 pesquisadores que sejam liderados por um pesquisador independente "excelente e inovador".

Segundo Alberts, esses laboratórios devem ser agrupados e imersos em uma cultura de cooperação, nos quais tecnologias e equipamentos sejam compartilhados livremente, a exemplo do que ocorre hoje na UCSF.

"Nossos sistemas de recompensa a pesquisa devem mudar para incentivar fortemente a originalidade e a tomada de riscos e aceitar as falhas, que fazem parte do processo", disse Alberts a uma plateia composta por pesquisadores e estudantes que lotou o auditório da FAPESP.

Concentração

Na opinião de Alberts, há um número excessivo de pesquisas sobre determinados temas que não levam a estudos inovadores, enquanto há outras áreas de pesquisa experimentais ainda inexploradas que podem resultar em aplicações novas e surpreendentes.

"É a pesquisa básica, que muitas vezes não tem aplicação prática no início, que leva a caminhos imprevisíveis para as mais importantes descobertas já realizadas na ciência", avaliou.

Uma das formas apontadas para sair desse estado de inércia irracional - que segundo Alberts afeta todos os grandes sistemas, incluindo as universidades e institutos de pesquisa - é por meio de incentivos, entendidos como recursos financeiros para a realização de pesquisas em áreas na fronteira do conhecimento.

"Um desafio urgente para as universidades e agências de financiamento à pesquisa é desenvolver mecanismos especiais para selecionar os melhores jovens pesquisadores e proporcionar a eles os recursos de que necessitam para iniciar novas linhas de pesquisa, sem a exigência de resultados preliminares", afirmou.

Alberts mencionou o exemplo dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, com a criação do New Innovator Award. Esse auxílio é voltado para pesquisadores com doutorado concluído há menos de dez anos, que podem propor uma abordagem altamente inovadora a um problema científico de alto impacto, sem a necessidade de apresentar resultados preliminares.

"Precisamos incentivar os cientistas a saltarem de áreas de pesquisa já excessivamente exploradas para outras, que ainda apresentam muitas lacunas e podem resultar em estudos inovadores", disse Alberts.

Problemas científicos a serem resolvidos

Entretanto, segundo ele, como há um enorme número de experimentos que, em princípio, poderiam ser realizados em áreas de pesquisa ainda inexploradas e os recursos financeiros e humanos para isso são sempre escassos, é preciso desenvolver estratégias para decidir sobre qual problema científico atacar.

"Meu conselho aos jovens cientistas é que trabalhem problemas que são importantes para serem resolvidos e que ainda não foram intensivamente explorados. Mas problemas que também tenham outros cientistas qualificados tentando solucioná-los, com os quais possam interagir", indicou.

De acordo com Alberts, algumas estratégias que têm funcionado bem na realização de pesquisas em diferentes áreas são identificar um problema científico importante e ainda não solucionado e inventar ou procurar novos métodos ou abordagens de resolução.

Já uma das estratégias que não têm obtido êxito é aperfeiçoar um determinado método ou abordagem e, posteriormente, procurar um problema científico para utilizá-lo. "Estratégia é tudo em pesquisa", disse Alberts.

"Os cientistas precisam saber o que está ocorrendo fora de suas áreas de estudo para se tornarem mais inovadores em seus campos de pesquisa", afirmou Alberts.





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