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CNPq derruba torres de cristal e inaugura Primavera Científica

O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) irá reconhecer, a partir de agora, tarefas de divulgação da ciência como trabalho efetivo dos professores e pesquisadores das universidades e institutos de pesquisa.

A medida é uma correção de um erro histórico, fundamentado na famosa ideia da "torre de cristal", uma crença subliminar de que cientistas são seres que devem se manter isolados da sociedade, como se fossem monges reclusos de uma nova igreja do conhecimento.

A partir de agora, divulgar a ciência para a sociedade e executar ações de educação científica passam a ser reconhecidos efetivamente como trabalho produtivo dos cientistas.

Com a mudança, cientistas de todas as áreas poderão declarar abertamente suas capacidades e suas ações de divulgação da ciência, seja na organização de feiras de ciências, promoção de palestras em escolas, ou mesmo artigos e entrevistas concedidas à imprensa.

Devido à política de fechamento que vigorava até agora, tem sido extremamente difícil obter informações de cientistas brasileiros sobre seus trabalhos e divulgar os progressos obtidos pela ciência brasileira.

O Site Inovação Tecnológica, por exemplo, entrevista rotineiramente cientistas de várias partes do mundo, já tendo recebido inclusive a atenção de pelo menos cinco ganhadores de Prêmio Nobel, sempre obtendo pronta colaboração e disposição para dar informações.

Mas o mesmo não se pode dizer dos cientistas brasileiros, simplesmente porque a academia não reconhecia, e muitos até criticavam, a disponibilidade para repassar informações ao público, que era sempre visto, no sistema de fechamento anterior, como não sendo capaz de compreender o "mundo próprio da ciência".

"Ainda há um fosso grande entre aqueles que fazem ciência e aqueles que consomem e financiam a ciência. A sociedade não conhece com profundidade toda a riqueza com que a ciência brasileira tem contribuindo para o desenvolvimento nacional," disse Glaucius Oliva, presidente do CNPq, durante o anúncio da "primavera científica", e que tem todo o crédito por liderar a derrubada dos muros de cristal da academia.

De fato, mas simplesmente porque os cientistas brasileiros não nos contavam o que faziam - e poderão passar a fazê-lo a partir de agora, sem serem criticados por seus colegas por estarem eventualmente fazendo algo inútil.

O professor Oliva ainda escorrega um pouco, falando em "consumo de ciência", revelando apenas um jeito um tanto estabanado de uma estrutura que, ao se aproximar do desconhecido, não sabe ainda como se comportar direito.

Nossa sociedade é de consumo, reconhece-se, mas ciência não é algo de consumo no sentido mercantilista. Ciência é interação do homem com o seu mundo em busca de conhecimento e, quiçá, sabedoria. Reconhece-se igualmente que tudo é consumível ou consumido no sistema econômico atual, mas, como novas teorias que superam antigas, novas organizações econômicas virão que poderão não se fundamentar no consumismo, e isso não eliminará a ânsia humana pelo conhecimento, cuja busca não prescindirá da ciência institucionalizada.

A sociedade não quer consumir a ciência, a sociedade que vivenciar a ciência, não apenas ouvindo histórias do que se faz em laboratórios complicados, mas sonhando junto o sonho basilar da humanidade, que é a busca do conhecimento, alimentando os cientistas com suas próprias preocupações, seus próprios interesses, sejam anseios e medos, sejam devaneios épicos de explorações em áreas ainda não sondadas. E então ouvir deles, dos cientistas, o que esse grupo da sociedade dedicado e melhor preparado para essa busca de forma metódica e coordenada, nos traz em termos de conclusões consistentes e fundamentadas. Mas também de boas histórias de se ouvir, sobretudo histórias que não se consomem nunca.

"No século 21, o cientista reconhece seu papel de engajamento na sociedade. Ele sabe que está sendo pago e financiado e que deve uma prestação de contas sobre o que faz." disse Oliva.

Mas assim fica muito seco e atrelado demais ao utilitarismo econômico vigente. O que queremos é: "No século 21, e, com fé, em todos os que virão, os cientistas sabem-se sociedade. É um prazer para nós fazer esse trabalho todos os dias, e um prazer maior ainda compartilhá-lo com todos os que se dedicam a todas as outras tarefas, igualmente valiosas."





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