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Equipamentos de Angra 3 serão desencaixotados depois de 25 anos

Sacudindo a poeira

A montagem dos equipamentos eletromecânicos da Usina Nuclear Angra 3 vai custar R$ 1,93 bilhão, R$ 490 milhões a mais do que o estimado pela Eletronuclear em abril do ano passado.

Guardados há mais de 25 anos em depósitos da Eletronuclear em Itaguaí e Angra dos Reis, no estado do Rio, os equipamentos comprados pelo governo brasileiro nos anos 80 para a Usina Nuclear Angra 3 deverão ser desencaixotados no início do ano que vem.

O edital bilionário para a contratação do consórcio que fará a montagem dos equipamentos eletromecânicos foi lançado na semana passada. Serão gastos R$ 1,93 bilhão e a expectativa é que, com o avanço das obras civis no canteiro de Itaorna, onde já operam as usinas Angra 1 e Angra 2, a montagem dos equipamento da terceira usina nuclear brasileira comece em maio de 2012.

Angra 3 deverá entrar ter um custo total de R$ 10 bilhões e as previsões para sua entrada em operação comercial variam de 2015 a 2018.

Tecnologia congelada

Apesar de estocados há tanto tempo, a estatal garante que os equipamentos estão em boas condições de uso e, de forma mais impressioante, afirma eles não se defasaram tecnologicamente.

São tubulações, bandejas de cabos, sistemas de cabeamento, estruturas metálicas, vasos, tanques, válvulas, entre outros, que custaram ao país US$ 750 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão) em dinheiro da época. Estima-se que apenas a conservação dos equipamentos guardados durante quase trinta anos tenha custado próximo a isso aos cofres públicos - eram pouco mais de US$20 milhões por ano.

Isso representa praticamente a metade do valor que a Eletronuclear terá que desembolsar para adquirir os equipamentos eletroeletrônicos que, ao longo desse período, evoluíram tecnologicamente, como sistemas informatizados de instrumentação e controle da usina e painéis elétricos. Em abril do ano passado, a contratação dos suprimentos importados foi orçada em R$ 2,2 bilhões.

Os equipamentos eletromecânicos foram adquiridos no âmbito do Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, firmado em 1975, que previa a construção de duas usinas gêmeas, cada uma capaz de gerar cerca de 1,3 mil megawatts: Angra 2 e Angra 3. Mas só a unidade 2 foi concluída.

A Usina Nuclear Angra 3 começou a ser erguida em 1984, mas a obra foi interrompida dois anos depois, não só por falta de recursos. Havia, na época, muitas dúvidas quanto à conveniência do uso de energia nuclear e aos riscos de acidentes e impactos ambientais. Em 2007, o governo federal decidiu retomar a construção da usina, pressionado pelo crescente consumo de energia do país e porque boa parte dos equipamentos já estava paga.

Ao longo dessas duas décadas, a manutenção da obra paralisada, incluindo estocagem e preservação dos equipamentos, seguros, inspeções periódicas e manutenção do canteiro de Itaorna custou ao país mais de R$ 600 milhões, ou US$ 20 milhões (R$ 32 milhões) por ano.

Montagem e testes

De acordo com o superintendente de Gerenciamento de Empreendimentos da Eletronuclear, Luiz Manuel Messias, a revisão do orçamento para a montagem dos equipamentos foi necessária por causa, principalmente, da adição de bens e serviços que não estavam previstos na montagem de Angra 2 - que serviu de base para o orçamento de Angra 3 - e pelo aumento do custo da mão-de-obra. "Fizemos uma atualização muito cuidadosa dos valores dessa montagem", assegurou Messias.

Diferentemente do que ocorreu com Angra 2, a Eletronuclear decidiu incluir na licitação da montagem de Angra 3 serviços de ar-condicionado e ventilação, pintura e isolamento térmico. "Como são serviços que se integram à montagem eletromecânica, é melhor pagar um pouco mais para ter apenas um interlocutor, que gerencia todo o processo", explicou o superintendente.

O consórcio (com até quatro empresas) que vencer a licitação também terá que se responsabilizar pelos testes de funcionamento da usina nuclear - o chamado comissionamento - e pela aquisição de suprimentos adicionais, como perfis metálicos, cabos, válvulas, lâmpadas, equipamentos de telefonia, sistemas de aterramento, entre outros. Esses custos também foram incluídos na licitação.

Concorrência pela mão-de-obra

Quanto à mão-de-obra, a estatal reviu, para cima, o valor médio da hora trabalhada porque a demanda por profissionais qualificados cresceu muito nos últimos anos, impulsionada pelos grandes investimentos em infraestrutura no país. A Eletronuclear está disputando operários e montadores com outras empresas estatais, como a Petrobras, cujos investimentos no estado do Rio não param de crescer por causa da exploração de petróleo no pré-sal.

"A pressão da Petrobras é significativa, a empresa é uma grande contratante de montagem eletromecânica e isso pressiona os preços da mão-de-obra, que é mais qualificada e mais valorizada", disse Messias. No pico da montagem, entre 7 mil e 9 mil pessoas estarão trabalhando no canteiro de Itaorna que, atualmente, conta com 3 mil operários envolvidos na construção do edifício que abrigará o reator nuclear.

Apesar da política da estatal de aproveitar ao máximo os trabalhadores que moram nas cidades próximas, a mão-de-obra local não é suficiente para atender à demanda. A Eletronuclear esperava contratar até 90% dos operários e técnicos na própria região de Angra dos Reis (que compreende os municípios do litoral sul do estado do Rio e do Vale do Paraíba). Mas a Petrobras e estaleiros que trabalham para a estatal de energia já absorvem boa parte dessa mão-de-obra qualificada. "Até para as obras civis estamos encontrando dificuldades para contratar", reclamou o executivo. Com isso, a mão-de-obra contratada no local vai representar pouco mais de 80% do efetivo total.

Pelo edital publicado na semana passada, os consórcios interessados na montagem dos equipamentos de Angra 3 vão passar por um processo de pré-qualificação que deverá durar quatro meses. Serão avaliadas a situação jurídica, a regularidade fiscal, a capacidade econômica e financeira e a qualificação técnica. Só depois serão apresentadas as propostas de preço.

A Eletronuclear estima que os operários da empresa selecionada já estejam no canteiro de obras a partir de maio do ano que vem. A montagem dos equipamentos deve levar 30 meses e a previsão é que a usina nuclear comece a gerar energia em operação comercial ainda nesta década.





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