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Era do Gelo radical é contestada por geólogos brasileiros

Era do Gelo radical é contestada por geólogo brasileiro
Afloramento na pedreira Terconi, no estado do Mato Grosso. A parte inferior mostra uma camada de dolomita rosa coberta por cinza calcária, rica em matéria orgânica. Estes carbonatos estão diretamente acima dos sedimentos glaciais.[Imagem: Pierre Sans-Jofre]

Terra Bola de Neve

A hipótese de que a Terra ficou completamente coberta de gelo 635 milhões anos atrás recebeu um duro golpe.

Entre as várias glaciações que ocorreram em nosso planeta, acredita-se ter existido uma em especial que teria congelado a Terra inteira.

Essa era do gelo teria sido tão drástica que ela é chamada de Era Bola de Neve, e teria ocorrido cerca de 635 milhões de anos atrás.

Mas dados coletados no Brasil por uma equipe internacional de geólogos estão contestando fortemente essa hipótese.

A equipe foi coordenada pelo geólogo Afonso César Rodrigues Nogueira, da Universidade Federal do Pará, que contou com a participação de outros especialistas das universidades de São Paulo (USP), Paris Diderot, na França, e Califórnia, nos Estados Unidos.

Concentração atmosférica de CO2

O estudo, publicado na revista Nature, não apenas desafia a hipótese da Terra Bola de Neve, como também reacende o debate sobre as origens do mecanismo de degelo de uma era do gelo forte o bastante.

Um dos maiores problemas de uma Terra totalmente coberta de gelo é como essa glaciação teria chegado ao fim, uma vez que o gelo reflete mais radiação solar para o espaço do que as rochas, realimentando uma glaciação contínua.

Os defensores da hipótese da Terra Bola de Neve apelam para os vulcões, que teriam jogado CO2 na atmosfera suficiente para aquecer a superfície do planeta e fazer com que o gelo derretesse.

Neste cenário, as concentrações de CO2 deveriam ter oscilado em torno de 120.000 partes por milhão por volume (ppmv) - o equivalente a 12% - o que é 300 vezes maior do que a concentração de CO2 hoje.

Pedreira da Era do Gelo

A fim de avaliar se isso era factível, os pesquisadores foram medir a concentração atmosférica de CO2 na época estudando rochas depositadas naquele período.

As rochas estudadas são carbonatos, depositados 635 milhões anos atrás, e que foram expostos em uma pedreira no estado do Mato Grosso.

Os cientistas compararam a composição isotópica do carbono entre os carbonatos e a matéria orgânica em organismos fossilizados, o que reflete as concentrações atmosféricas de CO2.

Os resultados mostram que as concentrações de CO2 naquela época eram muito próximas das de hoje (menos de 3.200 ppmv), o que está muito longe de ser suficiente para acabar com uma glaciação daquela magnitude.

Menos frio e menos oxigênio

O trabalho não apenas coloca em xeque a hipótese da Terra Bola de Neve, como também implica que estes episódios glaciais não foram tão intensos como se sugeriu anteriormente.

Além disso, os novos dados são consistentes com a ideia de que a atmosfera naquele período era muito mais pobre em oxigênio, cerca de 1%, em relação aos níveis de hoje, de aproximadamente 20%.

Bibliografia:

A carbon isotope challenge to the snowball Earth
P. Sansjofre, M. Ader, R. I. F. Trindade, M. Elie, J. Lyons, P. Cartigny, A. C. R. Nogueira
Nature
06 October 2011
Vol.: 478, Pages: 93-96
DOI: 10.1038/nature10499




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