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Ministro quer empresas investindo em C&T

O ministro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, em entrevista ao Portal Unicamp, voltou a afirmar a meta de elevar de 1% para 2% do PIB os investimentos do Brasil em C&T. Segundo ele, a iniciativa privada deverá ter um papel importante nesse processo. "O ideal é que as empresas participem com 50% dos investimentos globais", disse Amaral durante visita ao Laboratório Nacional de Luz Sincrotron.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


P - O senhor diz que não há desenvolvimento industrial sem desenvolvimento científico. Que ações o atual governo pretende adotar para fomentar isso?


R - Ações políticas no geral. Primeiro estamos fazendo um trabalho junto aos empresários. Já visitei a Fiesp, a Finerj e a CNI. Encontrei ótima compreensão. Irei visitar todas as federações (de indústrias) estaduais. Também vamos utilizar os nossos recursos, como a política de bolsas. Vamos usar a concessão de bolsas para induzir o desenvolvimento.

Uma outra forma é a nossa política de fundos, como os fundos setoriais. Nós estamos construindo uma rede cuja função será localizar uma deficiência tecnológica em determinada atividade, como agricultura ou indústria, e ao mesmo tempo, no campo da universidade, localizar a instituição que tenha know how suficiente para suprir aquela deficiência. Vamos aproximar a empresa privada da universidade para agregar valor aos produtos ou substituir a importação.


P -- O senhor disse que pretende aumentar os investimentos do país em C&T de 1% para 2% do PIB até o final do mandato. Destes 2%, caso eles se concretizem, quanto o senhor espera que venha da iniciativa privada?


R -- Se fosse hoje viria muito pouco. Mas como temos três anos de trabalho, vamos trabalhar ideologicamente, culturalmente. Um dado objetivo é o parque brasileiro. Temos de um lado as multinacionais, que por tradição não investem localmente em C&T, e de outro, o parque nacional que foi depedrado pela política de juros altos e se limita a importar know how. Temos de fazer ver a esse empresário que ele não sobreviverá à concorrência externa nem à interna se não investir em C&T.


P -- Mas a sua expectativa é que a iniciativa privada participe com quanto dos 2% do PIB que o governo espera investir em C&T?


R -- O ideal é que essa participação fosse de 50%. Nos Estados Unidos essa participação é de 80%. Se nós nos aproximarmos dos 50% pode ser que a gente vá até além dos 2% do PIB. Hoje a participação da iniciativa privada é em torno de 20%.


P -- Quais os esforços que o MCT pretende fazer para que a iniciativa privada eleve sua participação nos investimentos em C&T?


R -- Nós compreendemos a dificuldade do empresariado brasileiro, que deriva do modelo de importação do nosso parque industrial. Nos últimos anos, nós optamos por um desenvolvimento dependente de recursos externos, do mercado externo e da tecnologia externa. No governo passado foram criados 14 fundos setoriais que tratam de infra estrutura. Nós vamos usar estes fundos para estimular. Uma das idéias que vamos discutir como o BNDES é que abra fundos específicos para estimular o investimento privado em C&T. Nós precisamos fortalecer o parque industrial brasileiro para que ele tenha autonomia.


P -- Mas isso depende da política econômica.


R -- Depende da política econômica. Temos de retomar o crescimento. Cadê o mercado? O mercado precisa responder ao desafio de construir o país. Essa desafio não é só do poder público. É do mercado também.


P -- Mas o mercado não estaria esperando que a economia melhore?


R -- Eles têm de ver que ou nós todos nos juntamos ou então não vamos sair do lugar. Setenta por cento dos doutores formados nos Estados Unidos trabalham na iniciativa privada. No Brasil, 80% dos doutores trabalham no estado. O estudante brasileiro entra na graduação já pensando em ficar na universidade. Mas a universidade tem limites de absorção. O ideal é que a universidade forme o técnico para ele trabalhar na empresa privada.


P -- Mas a iniciativa privada só investe em pesquisa quando ela vê possibilidade de lucro.


R -- Só tem lucro quem investir em tecnologia. O mundo mudou. Aquela divisão do Adam Smith, dos fatores da produção, terra, trabalho, capital, isso desapareceu. O fator de produção hoje chama-se conhecimento. E conhecimento não cai do céu. Quem estiver atrelado à exportação de commodites vai ver a banda passar. Há vinte anos atrás todos os nossos índices eram superiores ao da Coréia. Hoje todos os índices da Coréia são extraordinariamente superiores aos nossos. Enquanto, por exemplo, nós temos duzentas e setenta e duas patentes internacionais, a Coréia registra por ano nos Estados Unidos mais de duas mil. A Coréia tem marcas. O Brasil não tem uma marca nacional.


P -- Como chegar a esse estágio?


R -- Chegar para o empresário e dizer que um determinado produto que ele importa pode ser produzido no Brasil. A universidade tal tem conhecimento para produzir um projeto que custará tanto. O estado entra com tanto e você com outro tanto. Vamos fazer esta parceria?


P -- Isso não seria atribuir à universidade a missão de desenvolver inovação? Na atual conjuntura, essa missão não caberia à iniciativa privada?


R -- A universidade tem essa missão.


P -- Mas o senhor não disse que cabe à indústria fazer a inovação?


R -- E se ela (a indústria) não faz? O meu papel é pensar o país. O que estou dizendo é que não há nenhum exemplo no mundo de um país que tenha se desenvolvido sem um projeto de nação.Isso ocorreu nos Estados Unidos, na China e na Coréia mais recentemente. O estado é indutor mas tem um limite. Ele não pode assumir todas as funções.


P -- Quanto está previsto em investimentos para esse ano na área de C&T?


R -- No total temos uma disponibilidade em torno de um bilhão e meio só para investimento no período de um ano.


P -- O MCT pretende induzir pesquisa em alguma área estratégica?


R-- Não propriamente induzir. Trabalhamos com a espontaneidade. Mas o estado tem de ter áreas que ele irá priorizar.


P-- Quais são?


R-- A biodiversidade, a biogenética, toda a área de genoma, a área espacial. São áreas que têm efeito multiplicador. Para desenvolver um satélite você desenvolve todo o campo da ciência. E também multiplicador do ponto de vista industrial porque a base disso são pequenas e médias empresas com plataforma tecnológica.







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