Redação do Site Inovação Tecnológica - 18/05/2026

Memórias físicas
Um conceito emergente de memória física, que permite codificar nos próprios materiais propriedades que são acionadas sob comando, já está em uso em diversas aplicações, sobretudo por meio dos chamados materiais com memória de fase.
Mas isso tipicamente exige mecanismos complicados ou materiais muito especiais e difíceis de sintetizar, que se tornam capazes de alterar de um estado cristalino para amorfo, e vice-versa, mediante um estímulo externo, como calor ou luz.
Agora, Sebanti Chattopadhyay e colegas da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, descobriram um meio de gerar o efeito de memória física em materiais tão simples quanto uma fita adesiva.
Uma fita adesiva comum pode ser manipulada de modo a apresentar um tipo específico de memória material com base em dobras reversíveis impostas sobre a própria fita. O material devidamente dobrado mostrou-se capaz de armazenar uma sequência de múltiplas memórias, que podem ser ajustadas para terem diferentes intensidades, ou apagadas para dar lugar a novas memórias.
"A fita adesiva comum é sensível à pressão: Quanto mais você a pressiona, mais firmemente ela adere à superfície," explicou Chattopadhyay. "Descobrimos que, ao remover a fita parcialmente, cria-se uma linha de forte adesão no ponto de parada, que permanece mesmo após a recolocação da fita. É possível repetir esse processo várias vezes, removendo a fita em distâncias cada vez menores, criando assim múltiplas linhas ou marcas de adesão."

Fita adesiva com memória
Para explorar esse mecanismo tão simples, mas tão promissor, o pesquisador construiu um aparelho automatizado capaz de descolar um pedaço de fita adesiva até uma distância predefinida, após esta ter sido delicadamente colocada sobre uma superfície, e depois recolocá-la no lugar.
As memórias são recuperadas ao remover a fita além das linhas de adesão, ou dobras, o que resulta em um aumento repentino na força necessária para remover a fita em cada linha - o dispositivo está equipado com um instrumento que mede a força necessária para remover a fita.
"Ao remover as linhas, elas são apagadas e o sistema é reiniciado," detalhou Chattopadhyay. "Mas também podemos ajustar a força das memórias, fazendo com que seja necessário aplicar diferentes níveis de força para removê-las, o que significa que cada linha pode representar informações diferentes. Podemos até mesmo criar algumas memórias fortes o suficiente para persistirem mesmo após a reinicialização do sistema."

Computação mecânica
Um aspecto importante dessa memória de fita adesiva é que o último dado registrado será sempre o primeiro a ser lido. "Esse fato permite um tipo simples de computação mecânica. É semelhante a um teste usado para memória de trabalho em neurociência, chamado comparação de um estímulo anterior. Os participantes são apresentados a uma série de estímulos e precisam comparar cada um com o estímulo anterior. Como a última memória formada na fita é sempre a primeira que você encontra ao descolá-la, podemos sempre comparar uma memória com a que a precedeu imediatamente," explicou o professor Nathan Keim.
Além disso, diferentes tipos de memórias materiais podem viabilizar o desenvolvimento de dispositivos capazes de realizar cálculos, criando autênticos processadores mecânicos e, de modo mais geral, à exploração da inteligência material.
"Há muito tempo existe interesse no desenvolvimento de dispositivos que não precisam de eletricidade e não apresentam as mesmas vulnerabilidades dos computadores eletrônicos," disse Keim. "Não esperamos que esses dispositivos sejam feitos com fita adesiva, mas somos movidos pelo desejo de compreender a ciência fundamental por trás dos vários tipos de memórias que os materiais podem formar e como elas podem ser aplicadas em sistemas futuros. À medida que esse conhecimento se aprofunda, podemos encontrar maneiras de utilizá-lo que ainda nem imaginamos."