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Mais ricos do planeta discutem renovação do capitalismo

Mais ricos do planeta discutem renovação do capitalismo
Um estudo de 2011 mostrou a rede capitalista que domina o mundo - mas desconfia-se que a concentração seja ainda maior do que os dados indicam. [Imagem: BBC]

Um grupo de pessoas que juntas controlam US$ 30 trilhões (R$ 67 trilhões) em ativos globais - ou cerca de 14 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil - reuniram-se em Londres para debater os rumos do sistema capitalista.

Segundo a organização do seminário "Conferência sobre o Capitalismo Inclusivo: Construindo Valores, Renovando a Confiança", o objetivo do encontro é discutir ideias que ajudem a promover uma sociedade baseada no livre mercado, porém mais igualitária.

O evento inclui entre os palestrantes o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, e a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. O príncipe Charles, do Reino Unido, abriu os trabalhos.

A conferência ocorre em meio à polêmica recente lançada pelo economista francês Thomas Piketty de que o capitalismo vem concentrando renda, em vez de distribui-la.

Veja abaixo o que declaram três participantes do evento.

Lynn Forester - CEO do conglomerado Rothschild

O capitalismo tem de provar à sociedade como um todo que é um mundo de oportunidades para a prosperidade geral e para o crescimento dinâmico. Por causa dos escândalos que tivemos nos últimos cinco anos, e por causa do crescimento da desigualdade, penso que os patrões têm a obrigação moral de provar o que é bom para a sociedade e o que é bom somente para os seus negócios.

O capitalismo inclusivo não é nada diferente do capitalismo consciente ou do capitalismo progressivo. Trata-se de um sistema que permite um desenvolvimento maior de toda a sociedade e não se sustenta por si mesmo. O capitalismo inclusivo é bom capitalismo.

Já o mau capitalismo é amarrar as taxas Libor (taxa preferencial de juros que remunera grandes empréstimos entre os bancos internacionais operantes no mercado londrino), é vender instrumentos financeiros que são prejudiciais ao seu investidor, é tirar vantagem dos trabalhadores e não se importar com a sustentabilidade da sua cadeia de fornecedores. Há muitas coisas que formam o que entendo por ser mau capitalismo.

É por causa disso que temos tão pouca confiança do público em geral sobre o capitalismo, porque, por muito tempo, nos permitimos um mau comportamento dentro dos nossos negócios. Temos de reconhecer de uma vez por todas que fizemos coisas erradas.

Um dos meus principais objetivos como fundadora e coapresentadora da Conferência sobre o Capitalismo Inclusivo era fazer com que investidores do mundo inteiro não se preocupassem apenas com o lucro.

Eu quero que eles perguntem às suas equipes coisas do tipo: O que você está fazendo para garantir a perenidade da sua cadeia de fornecedores? Como é o seu contato com a comunidade à sua volta? Você é admirado? O que tem feito para melhorar?

Se os investidores colocarem dinheiro em companhias que têm uma visão de longo prazo sobre a sociedade, então as corporações vão fazer o mesmo. O nosso horizonte tem de ser de 20 anos, não de 12 semanas. Esse é meu objetivo imediato.

Madsen Pirie - fundador e presidente do Instituto Adam Smith, que defende o livre mercado

Quando as pessoas renunciam aos prazeres do cotidiano e só pensam em investir, acreditando com isso que vão ganhar dinheiro ao proporcionar mercadorias e serviços que outras pessoas talvez queiram no futuro - essa é a minha definição de capitalismo.

O capitalismo gerou a riqueza necessária para tirar grande parcela da humanidade da subsistência e da fome e nos permitiu financiar a ciência, a educação e as artes, assim como obter conforto material e oportunidades.

Tal como a democracia pode ser corrompida pelo populismo repressivo, o capitalismo também pode ser desvirtuado pela busca de renda, quando as pessoas tentam obter ganhos maiores do que os produtos e serviços que produzem para os outros.

Algumas vezes, essas mesmas pessoas tentam influenciar o cenário político de modo a pressionar pela manutenção de monopólios e evitar a entrada de novos atores no mercado que trazem consigo o potencial criativo. Algumas vezes, eles usam governos para lhes fornecer subsídios por meio dos contribuintes, ou proíbem produtos importados mais baratos.

Outras vezes, elas fazem acordos com governos que recorrem a fundos dos contribuintes para sustentar perdas decorrentes de decisões incompetentes ou imprudentes. Essas formas de capitalismo de compadrio excluem os benefícios e as conquistas reais do capitalismo.

O capitalismo deve se libertar-se da urgência do lucro e beneficiar um número maior de pessoas.

Para isso, o capitalismo deve condenar fortemente o uso de práticas anticompetitivas e dar a pessoas o poder da livre escolha entre bens e serviços concorrentes. Mais pessoas também devem ter o direito sobre a propriedade do capital e de investimento, ora por meio de contas poupança individuais, ora pensões, por exemplo.

O capitalismo também deve reduzir as barreiras à entrada de novos competidores no mercado, de forma que todos possam aspirar a montar um negócio. E, por fim, deve adotar um sistema tributário que premie o sucesso, em vez de puni-lo.

Basicamente, estamos falando de inclusão, de tal modo que o maior número de pessoas possa deixar de consumir irrefreadamente para investir seus recursos e seu tempo no fornecimento de bens e serviços a outras pessoas. Esse é o verdadeiro capitalismo.

Clive Menzies - economista

Um estudo de 2011 da revista New Scientist revelou que 147 "super entidades" controlam 40% das 43.060 empresas transnacionais e 60% de suas receitas.

A pesquisa foi baseada em acionistas e diretores, mas não revela a propriedade nem o controle por trás de empresas "laranja", fundos ou fundações. Dados sugerem que o poder estaria muito mais concentrado do que realmente o levantamento sugere.

Esse poder, que não é controlado pelo Estado, domina a política, a mídia e a educação. O capitalismo financeiro procura monetizar e controlar tudo, influenciar a legislação e a regulamentação a seu favor.

Tal sistema é, no meu ver, elaborado a partir de três falhas fundamentais no sistema econômico e evoluiu para beneficiar a classe dominante ao longo dos séculos. Essas falhas, entretanto, foram expurgadas do discurso econômico.

Falha 1. A propriedade privada sobre terra, recursos e outros bens comuns (como a água, o espectro de rádio, genes, natureza e conhecimento), recursos naturais (ou Deus), cujo valor é comunitariamente criado. Esse valor deveria ser compartilhado para o bem de todos.

Falha 2. A cobrança de juros não gera riqueza, mas sistemicamente impulsiona a desigualdade, a destruição do meio ambiente, conflito e um crescimento exponencial e insustentável da dívida. A dívida deveria ser inaplicável pela lei e a usura (empréstimo de dinheiro a juros) ilegal. A dívida deveria ser destinada mais à construção da teia social do que facilitar a extração de riqueza, a exploração e a opressão.

Falha 3. O aumento da mecanização e da tecnologia tornou o pleno emprego inatingível, desnecessário e indesejável. Os meios para a vida não podem ser condicionados ao emprego remunerado, mas é um direito de todos e deve ser prestado sob a forma de um dividendo suficiente para uma vida digna aos cidadãos incondicionalmente.





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